sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

A sua obra é o seu epitáfio . 46664 nº do Prisioneiro. 27 anos. Livre, 95 anos.


Na sua longa caminhada com a liberdade, encontrou finalmente a paz. É energia pura. Como foi a sua energia em vida.
Que tocou todos colectivamente e cada um como indivíduo.
Disse e fez exemplarmente tudo o que a Humanidade precisava e precisa para se redimir. Desesperadamente.
É a nossa consciência colectiva.
Um Homem transcendente e Universal. Não um Deus perfeito, mas um Homem com H de Herói.
O que o ser humano tem que se aproxima de um Ideal. Tão raro quanto os seus ideais pareciam impossíveis.
Tornou-os realidade porque nunca deixou de acreditar. Lutou com armas, com astúcia e inteligência, com o carácter, com as palavras e sobretudo com o coração.
Não tenho ídolos, mas tenho heróis que guardo no coração. Que me servem de exemplo. Biko e Mandela fazem parte desse grupo restrito de Homens.
Hoje a RSA está dividida, em conflito e não sanou as suas graves divisões. Não é uma só Nação. Mas que a vida do Madiba seja o exemplo em direcção à reconstrução de um país que adoro.
Que os valores que praticou sejam também exemplos para a Humanidade. A união, a reconciliação, a justiça, a educação.
Mandela sonhava com a liberdade na sua terra África do Sul. Viu-a, sentiu-a, fê-la ser livre.
Um dia a humanidade será livre. Até lá não podemos descansar.

Escrevi este texto quando o Madiba ficou muito doente já este ano e ninguém contava com a sua recuperação. Mas ele ainda não tinha terminado a sua luta. Agora deu-a como concluída. Juntou-se a Steven Biko e a Oliver Tambo. Os seus heróis a quem ele sempre agradeceu.

Precisamos de nos relembrar com frequência de Spartacus, Úrsula, Django, Rosa Parks, Luther King, Biko, Mandela, Waris Dirie, Gandhi, Cabral, Anne Frank… (reticências porque a lista não tem fim entre vivos e desaparecidos, entre mais antigos e contemporâneos, anónimos e conhecidos).
Uns são mais conhecidos que outros. Milhares totalmente anónimos. Uns mais sofridos que outros. São apenas alguns, no meio de milhares de desconhecidos. Mas todos têm algo em comum. Foram a consequência. De más acções do Homem.
Acções que determinaram a nossa História.
São também a nossa consciência colectiva. São as nossas referências. Do mundo como foi. E de como é hoje. Do que conquistámos e do que involuímos.
Estes homens e mulheres sofreram na 1ªpessoa por aquilo que os seus pares da raça humana decidiram, em diversos períodos negros (porque isentos de luz), na História Universal.
Mas fizeram também parte da acção. Individualmente reagiram em nome do colectivo. Por eles o colectivo progrediu. Por eles o mundo tornou-se mais rico em valores. A raça humana é descendente destes homens e mulheres. E de tantos outros como eles. Que merecem ser lembrados. Foram vítimas. Involuntárias.
Foram obrigados a acatar as ideologias das várias épocas através dos 3 D´s:
Domínio, Diferença, Descriminação.
E um E- Exclusão através de um R- Repressão!
Através da imposição da política dos 3 P´s: Pano (para vestir),Pão (para aguentarem o trabalho), Pau (para andarem na linha). Os D´s e os P´s foram apenas tendo nuances ao longo da História.
Foram escravizados, colonizados, excisadas, reprimidos, brutalizados, segregados, porque assim foi decretado e imposto por homens que fazem leis e inventam princípios religiosos com o objectivo de fazer cumprir desígnios que Darwin avançou sobre a espécie humana. A imposição da lei do mais forte. Mas contra natura. Através da visão mais distorcida da espécie.
Por ganância, poder e egoísmo em todos os casos. E índices anormalmente elevados de testosterona. Ontem como hoje temos outros decretos e imposições vindas nos nossos pares. Pelas mesmas razões.
Individualmente não se deixaram dominar, adaptar ou perder a consciência. Foram mais longe, por amor aos outros. Para libertar o colectivo de decretos e imposições.
Ainda no meu tempo, gostava que reinventássemos estes homens e mulheres, modelos e referências do nosso passado e que nos fizeram evoluir. O medo não os dominava. Talvez tivessem medo de não serem suficientemente fortes, mas nunca o medo de não tentarem. A passividade nunca levou nenhum homem a evoluir. O seu contrário sim.
Reinventemos e respeitemos as memórias de quem defendeu os direitos universais. Por obrigação moral colectiva. Porque morremos como indivíduos se não tentarmos.
Individualmente a bem do colectivo e com este, chegámos à Constituição da Carta Universal dos Direitos do Homem.
Por esta memória, por nós, por quem está mais vulnerável. Não permitamos que homens de má-fé e mais fracos, porque precisam de decretos e imposições para dominar, se sobreponham aqueles que sendo mais fortes de espírito, se percepcionam como mais fracos.
O que é conquistado por apenas um indivíduo tem o esforço, a memória e o modelo do colectivo. E, nenhum colectivo atinge a evolução sem o esforço, a determinação, a coragem e a memória vinda de um modelo de alguém que um dia rompeu com imposições decretadas.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Ser Zen, na espuma dos nossos dias


Ao lidarmos com todas as circunstâncias e situações que nos rodeiam diariamente, com consciência e conhecimento, sem perdermos o pé,mesmo quando o perdemos, somos já muito "zen".
Não é viver em estado meditativo nas montanhas do Tibete, num ashram na India ou num templo em contemplação do universo.
É aqui, na rigidez dos nossos dias, que mostramos que valemos pelos nossos valores e não pelos nossos sucessos.

Esse é o meu espírito todos os dias, ser zen no sitio onde não me sinto de cá, sendo cá, este planeta como está. 
As minhas terras em particular. Os países onde sou da casa.

A minha liberdade encontro-a em fugir para dentro e re- escrever a realidade.
"Parem o mundo que eu quero sair", este é o reflexo do meu desajustamento diário. 
Onde estão as parteiras para parir o mundo melhor? 
Se é na esperança de pessoas melhores, então também a vou continuar a alimentar.  
Indo para além do fado,mesmo que as palavras me façam doer a voz.

Já somos muitos pobres e só precisamos de abraços e gestos de verdadeiro amor para que o mundo vire o eixo e entre no eixo certo.
 
Precisamos de eleger e tornar o planeta e a espécie humana, Património da Humanidade.




quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Saíamos da nossa “zona de conforto” (no sentido contrário ao que uma ave de rapina um dia lhe deu),


Na espuma dos nossos dias

Antes que um grupelho de aves de rapina nos diga que o direito à vida não é nem universal nem inalienável, tornemo-nos melhores e saíamos da nossa zona de conforto, como se diz por aí.

Martin L. King temia o “silêncio dos bons” e neste momento os “bons” somos todos nós.
São aqueles que comem, calam e ainda aguentam. São aqueles que não saem da sua zona de conforto, seja lá onde ela for e se vendem por 20 dinheiros, ou um prato de lentilhas.
Ou nem se vendem. Pior. Ficam quietos e fazem tudo o que parece “certinho”.

Na sociedade escrava com assalariados do século XXI, neste novo regime que irá ser conhecido na História como o tempo das lâmpadas fundidas, por oposição ao Iluminismo, ser certinho e pagar os impostos, usar os bancos, dizer que sim às chicotadas do patrão, consumir desenfreadamente (quando se pode), deixarmo-nos seduzir por canudos que nada valem, sem procurarmos conhecimentos e educação verdadeiros e tantas outras seduções e manipulações a que nos acorrentamos, é estar numa zona de conforto da qual temos de nos libertar.

Os crápulas sabem que nem precisam de mandar os novos condenados para câmaras de gás.
Basta que façamos o que nos conduzem a ser: obedientes cegos, surdos e mudos.
Eles conseguem ser livres e fazer de nós os seus escravos. Sem distinção de cor, idade, género ou credo.

Precisamos elevar o nosso planeta a património da humanidade e a raça humana a nobel da evol-ução. Ou Love-ução.

A arte, a cultura, a educação, o conhecimento, dão-nos chão para nos libertarmos.
Para cultivarmos raízes profundas nas nossas consciências. Por isso os canalhas lhes largam fogo. Por isso não as deixam medrar.

Se não sairmos das nossas zonas de conforto, bloqueando e burlando o sistema, não fazendo as coisas direitinhas como eles esperam de nós.
Se não subvertermos o sistema e nos rebelarmos contra os canalhas, seremos engolidos pelo fogo. De uma câmara de gás moderna.
Talvez seja até necessário Grandolar ao estilo de algum inverno grego ou turco. Ou Islandês.
Precisamos de deixar de estar presos no silêncio. Sair das nossas zonas de conforto. Sobretudo as que residem nas nossas mentes.
Na fina linha que separa as nossas vidas escravas da liberdade.
A espécie está longe da perfeição mas nasceu livre e, não quero com o silêncio, um dia, dar razão a que se pode tirar a espécie das trevas, mas não se pode tirar as trevas da espécie.



domingo, 1 de dezembro de 2013

Carta de alforria, Na espuma dos nossos dias



No dia em que um grupo de portugueses se fartou de ter os espanhóis a reinar e se rebelou.
Vamos fazer com que deixem de novo de reinar connosco.



Venho fazer uma denúncia.
A senhora Presidente da Casa do Povo diz que é um crime protestar (e grandolar) nas galerias dessa casa, paga com os impostos dos constituintes.
Diz que vai fazer um estudo…certamente que o mesmo será pago com o meu dinheiro e o teu. Sim, o de quem está a ler isto.

Cada dia que passa vem alguém mais sábio que o anterior dizer pérolas de sabedoria sobre o povo, os seus direitos e conquistas a duras penas, ou outra qualquer situação que eles considerem uma aberração.
Porque de aberrações se tratam. As pérolas deles.
Não os direitos e as conquistas, mas quem as profere.

Devem ter aprendido estas pérolas quando andavam a pagar a gurus, nalgum ashram na India para fazer meditação transcendental, ou andavam a “comer, amar e orar”.
Nas ilhas Cayman onde guardam as contas bancárias.

Se me tivessem perguntado, ensinava-os a meditar enquanto ganham o ordenado mínimo nacional. Com o tempo despendido na meditação, transcendiam-se com o jejum, comiam uma hóstia na missa de domingo e talvez aprendessem a amar o próximo cidadão, já que o Bardem comeu, orou, amou e casou com a Pepélope.

Deixo-me de devaneios e faço a denúncia que me trouxe aqui.
Mais um atentado aos nossos direitos. Quero fazer mais um alerta. Este é mais um protesto contra o que está a ser serenamente anulado: o fim do nosso estado de direito e sobretudo o fim ao nosso direito a um Estado de bem. Para acordar os de sono pesado.

Ontem, um dia pensado para não se fazer compras, para não se consumir e sim para reciclar, trocar, reutilizar e dar, um grupo de jovens bem acordado para não perder o direito a uma vida feliz, ou como lhes chamaria um miúdo de 12 anos, “hackers”, colocou em prática esta prática.

São hackers do sistema selvagem em que vivemos. Que querem trocar as voltas à falsa democracia e instalar o vírus da solidariedade entre as pessoas. Que se preocupam com o bem-estar colectivo.

São jovens alegres, que só querem ser felizes hoje e quando forem mais velhos. Sim, porque o futuro foi-lhes penhorado.
Têm o direito inalienável de serem felizes no presente e no futuro. Que nenhuma presidente da assembleia, banqueiro, sinistro no governo ou outro lhes pode retirar.

Com alegria ocuparam uma parte da rua do Carmo e estiveram a oferecer, sim OFERECER roupas, livros e comida. Cada pessoa podia chegar oferecer coisas e partir com o que precisasse. Até estrangeiros reformados levaram coisas em 2ªmão e tiraram retratos à acção de rua.

Foi uma alegria, porque mesmo na pobreza não precisamos de ser tristes. E às 4 da tarde tocaram para alegrar quem passava. E iam dando lições de cidadania com as explicações que iam dando a quem passava.
Ensinavam que trocar e partilhar coisas é bom, vale a pena e é um caminho.
Eram 4 da tarde de sábado, juntaram dezenas de pessoas a ouvi-los tocar que participaram sem se fazer rogados.

De repente foram interrompidos pela PSP. A polícia do povo. A polícia que os jurou defender. Como a senhora Presidente da Assembleia o fez. A polícia que subiu as escadarias da Casa do Povo sem receber bastonadas em troca.

A PSP tinha recebido uma reclamação por ruído. Com o argumento de que estavam a perturbar o descanso das pessoas nos seus lares.
Junto aos armazéns do Chiado? Onde só há comerciantes/multinacionais e nenhum lar, quis eu saber.
Queriam levá-los. Perguntei à multidão que se juntou para os ouvir tocar se se sentiam incomodados.

Gritaram em uníssono que não. A Polícia teve de engolir não um sapo mas um jacaré. Havia uma linha que se eles pisassem teriam dezenas de testemunhas a acusá-los de fascismo. Eles andam a pisá-las. Todos os dias, porque deixamos.
Mas ontem não foi o dia.

Os rapazes e raparigas fizeram o que tem de ser feito. Resistiram pacificamente a saírem dali, a dar os nomes, ou a deixarem-se levar.
Obrigaram a PSP a dizer o que queria em frente a dezenas de pessoas. Com muita gente do público a reclamar. Outros filmavam e gravavam.

A PSP cumpria o seu dever de responder a uma queixa vinda de alguém não identificado…(suspeito que tenham sido os comerciantes das multinacionais da zona, por não encontrar outras vítimas do barulho feito pela músicos).

Os jovens cumpriram o dever de cidadania de não saírem dali, de exigirem em frente aos muitos presentes, que lhes fossem dadas respostas.
Porque razão não podiam estar ali a tocar e a dar oportunidades a pessoas de levar gratuitamente o que quisessem e precisassem?
A PSP não trazia máquinas para medir decibéis, apenas uma reclamação. Contra um grupo de jovens músicos na sua maioria, com aspecto de novos hippies.
Dali não saíram e a PSP acabou por se retirar mas acabou a música e a dança. As trocas continuaram a fazer-se, os jovens continuaram a explicar o que os levava ali.

A acção da PSP cheirou muito mal. Cheirou-me a preconceito mas cheirou-me pior.

Cheira-me que querem acabar de vez com a cultura e com a educação. A cultura vinda dos cinemas, dos teatros, da música, da literatura. Por isso os querem levar a fechar.
Calam a educação, vinda também da informação e de gestos de cidadania.
Querem bloquear a cultura de um novo caminho que só se pode abrir através da cultura e da educação.

Se estivermos muito pobres só podemos pensar em satisfazer as necessidades básicas, como no 3º mundo.
Se estivermos muito pobres, em dívida, ficamos muito apáticos, alienados, dormentes e não pensamos no colectivo.
Se estivermos muito pobres, vamos empurrando com a barriga até voltarmos a usar lenço preto, bigode e comer sopas de cavalo cansado.

Cheira-me que se retirarem o direito a estar na via pública a partilhar, a informar, a trocar, a ser feliz, obtêm o maior poder de todos. O poder de manipular. Que tão bem fazem através de outros mecanismos.

Cheira-me que nos querem impor o Estado sem direito e sem direitos.
Precisamos cada dia mais, de mais hackers.
Resistentes e desobedientes.
O caldo está a esturricar. E cheira-me muito mal.

Querem-nos fechar portas a todo o custo e abrir as da ignorância que levam ao medo.
Se somos uma raça em experiência, auto entreguem-se cartas de alforria e hackem o sistema.
Pelo amor às vossas vidas.