terça-feira, 13 de maio de 2014

Não é gelo para caipirinha,



Sonhei abraçada. A uma árvore imponente. Deste-me a força das tuas raízes. As raízes do embondeiro, viradas ao contrário. Curiosa quis saber, porque ficaste assim? Não sabes? Porque não soube ajudar a salvar a humanidade e recebi a missão de ficar a dar abrigo a quem de mim precisasse. A ensinar o valor de nos protegermos uns aos outros. Enterrado com as raízes para cima. Ao contrário. Como estão vocês agora, até aprenderem esta missão. Como sabes isso? Ora pensa comigo, faz parte da natureza humana a necessidade fundamental de se auto-exprimir e isso só é possível se forem livres. Assim como a de ser curioso, rebelde e indomável. Eu não posso, estou aqui, para sempre, à espera que vocês aprendam. No tempo de ser crianças e adolescentes desabrocham estas características e tornam-se imperiosas. Mas agora são adultos e não são livres…Como adultos estão em processo acelerado de negação. É uma verdade tão limpa que vos dói. Alguns até sabem a verdade mas não acordam da letargia. Como o pobre sapo que foi colocado num dos vossos fornos dentro de uma taça com água fresca. À medida que a temperatura subia, o sapo sentia-se desconfortável e inquieto mas não o suficiente para saltar. Se não toma consciência da oportunidade de saltar, vai ser gradualmente conduzido pelas circunstâncias para o adormecimento que surge da temperatura que o vai cozer. No tempo de hoje, por não acordarem as forças telúricas movimentam-se para nos sacudir ou engolir. Imagina um livro.
Escutava-o atentamente sentada numa raiz enquanto degustava o seu fruto. O embondeiro continuou… Se o enredo continuasse sem fim, perderia o interesse e os leitores não é? Por isso a morte transforma-nos quando chega o fim da trama. Uma flor para vingar e cumprir o papel para o qual nasceu precisa de cuidados. Assim precisa a vida de qualquer ser vivo, incluindo o planeta que generosamente nos oferece abrigo.
Já percebi, disse eu com o calor da vontade de ser indomável; a vida da nossa mente e do nosso coração é uma máquina preparada para imaginar e criar. É uma ferramenta. Se bem ajustada cumpre a função que lhe está destinada. Se sofre uma avaria, começa a ter graves irregularidades ou falhas mecânicas e torna-se irrelevante. ..Assim são os homens na sua vida e a natureza na sua acção, entendeste porque ficarei aqui para sempre? Vocês precisam de reparação urgente das peças para re-escrever o final da história do nosso livro preferido. Cada um encontrar o seu caminho antes de se transformar em raiz de uma árvore, folha de primavera ou borboleta de verão. Antes que um novo outono de gelo nos atinja, nos extinga juntos e nos remeta ao inverno da nossa experiência como seres vivos.

Esta noite, irei de novo abraçar com o coração, mais um sonho.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Prometo!



Na espuma dos nossos dias,

Prometo!

Quando eu chegar ao céu algum anjo vai-me arrastar por um braço e sussurrar: entra depressa para o diabo não te ver.
Tenho de tratar das minhas vísceras. É imperioso que o faça para não me arranhar por fora. Por dentro elas já enviam para a corrente sanguínea um ácido estragado. «A terra está um lugar inóspito» e vivemos iludidos.
Tudo está perigoso à nossa volta e tal como a mulher violentada, somos essa espécie de vítima. Com o que se passa neste canto do mundo e noutros que me afectam porque são cantos dos meus afectos, andamos incapazes de pensar pelas nossas cabeças, de limpar a merda da fralda e um dia destes estamos todos a sofrer da síndroma de Estocolmo.
Desenvolvemos um laço afectivo com os nossos torturadores, identificamo-nos com eles e votamos neles. Temos mais smartphones mas somos cada vez menos espertos se não usarmos a tecnologia para nos salvarmos como um todo.
Também me preocupa a nossa incapacidade de sentir empatia, de optarmos por silêncios, por meias verdades ou a total falta dela, de nos estarmos a distanciar uns dos outros nos relacionamentos uns com os outros nesta imensa tribo.
Todos precisamos de ser individualmente reconhecidos pelos outros como seres especiais e em simultâneo sermos parte da tribo. Individualmente e pertença são uma seta numa só viagem. Todos somos seres especiais. Cada um de nós. A nossa singularidade manifesta-se no conjunto, com os outros.
Por isso, sentir é tão importante. Ser humano nos dias de hoje é uma tarefa delicada, complicada, difícil, cansativa. Quase que nos leva à rendição antes do tempo. Precisamos de ajuda uns dos outros mas publicamente fingimo-nos heróis. Somos heróis mas arrastamo-nos vazios e iludidos.
No meio dos nossos dias lidarmos com tanta tortura e infâmia e ainda assim saber rir, colocarmo-nos nos sapatos dos outros, dar de comer aos filhos, educa-los, estender a mão ao vizinho, ou trazer o estranho para nossa casa, convidá-lo para o jantar em família e oferecer-lhe um banho quente, ou ultrapassar o trânsito sem accionar a fisga electrónica montada no pára-brisas, e, ver a conta negativa sem nos despencarmos em alguém ao nosso lado, isso é ser zen.
Antes do meu encontro com o anjo que me vai deixar entrar no céu antes do diabo me apanhar, vou continuar a gostar desta montanha russa em que subi quando aceitei pagar o bilhete para esta corrida.
Não vou deixar de fazer o que gosto, procurar manter a minha alma limpa, não deixar que a minha dignidade seja vendida nos mercados e lutar para defender a dignidade da minha tribo. Essa é a minha moeda de troca no mercado onde hoje sou vendida.
Isso é tudo o que importa e deveria importar a cada uma das vítimas dos flagelos da modernidade. Temos tudo nas mãos para curar a síndroma. Temos sim. Conhecimento, tecnologia, vontade, capacidade e doses suficientes de loucos.
Muitas campanhas merecem toda a atenção cá dentro e lá fora. É uma das formas de pressão de que dispomos. Falar, divulgar, discutir. Mas nunca calar o que precisa ser exposto. Salvamos um, salvamo-nos a todos.
Determinar quem quero ser e o que quero fazer poderia vir das doutrinas dos livros de Marx ou dos apóstolos, por exemplo. Mas prefiro as doutrinas vindas dos livros dos poetas, dos filósofos e dos escritores inspirados e apaixonados pela humanidade. Vou ficar amarrada a elas.
Se não o fizermos rapidamente temo que os ácidos subam pelo esófago e ao atingirem a laringe serei dominada pela síndroma de Tourette.
Bring back our humanity to our humankind

Impressões das estrelas em dois actos




I)
-Achas que estamos sós?
-Não seria pretensioso da minha parte neste imenso espaço de luz imaginar que estamos sós?
-Parece-me que somos exactamente isto, não mais do que isto, pó. O que é largado pelas estrelas quando deixam o firmamento e caiem no nosso chão…juntam-se a partículas, átomos e formam a energia que nos dá corpo.
-Por isso algum cientista disse que esta é a forma do cosmos se auto-conhecer. Através de nós, em nós. Sendo indivisível dele e uno com ele. Pó…de estrelas.
-Gosto da ilusão de fazer parte de um átomo que se experimenta na minha forma. Na tua forma. É ter a ilusão de ser tão grandioso e absoluto quanto o cosmos.
-Neste caos com ordem símbolo as nossas vidas, sabiamente como na natureza, as partículas de pó organizaram-se em leis incorruptíveis. Quando são trespassadas na sua profunda e perfeita beleza, submergem-nos aniquilando-nos. Ele o cosmos, eu e tu somos parte um do outro mas ele sabe bem mais do que nós.
-Que esperavas? Ser o cosmos tem as suas vantagens.
-Então o cosmos só pode ser como um poeta, um escritor, um músico. É um compositor que no auge da paixão se diverte a criar formas, em ligar partículas, em formar palavras em conceber beleza a partir de toques de magia e calçá-los com sapatos delicados de bailarina para percorrer caminhos por entre as nuvens. Em busca de rasgos de luz. A essência da alma encontra-se nesses traçados a pincel.
-Vemo-los nas grandes obras de arte e também nas pequenas e simples coisas da vida. Como o amor. Que buscamos para pertencer ao todo e para nos diferenciar como estrela.
II)
No silêncio falo tanto contigo! Sim, acabaste de me confessar que as palavras tomaram o doce sabor da liberdade e já não as podes retirar. Ver-te dançar, isso sim. Foi nesse momento. Foi vislumbrar a perfeita via láctea na noite, sem as luzes da cidade. O teu corpo como um templo foi um labirinto delicadamente esculpido. Onde mãos e lábios macios se perdem com a avidez de quem se quer lentamente esconder para sempre, enquanto o tempo quer passar o tempo que demorar uma vida sem tempo. Eu parei com ele.
Parámos juntos e ficámos a noite inteira num lugar onde nem o tempo conseguia entrar. Dentro de nós, onde os corações pulsaram e os olhos se fundiram. Falámos em silêncio enquanto a música que vinha do canto das estrelas compunha os versos que seria a nossa paixão. Como é que não nos tínhamos visto antes? Como é que aconteceu esta simbiose, este encontro? Sim, falo pelos dois. Recordo-me bem dos detalhes, entraste e vimo-nos. Foste dançar. Eu também. Ficas comigo, quiseste saber? Era tudo o que eu queria. Fiquei.
Tínhamos medo que a noite acabasse com a música. Levámo-la connosco para a praia e com ela o sol nasceu. Não parámos de falar da vida, das nossas histórias, de música e dos nossos autores favoritos. Dos sonhos e dos medos. Cada nova descoberta esculpia o raio que espreitava entre as nuvens. Vimos estrelas cadentes e pedimos desejos secretos. O mesmo livro favorito, o mesmo sabor de gelado. Abrimos a alma, feita de pó das estrelas. Rimos e ficámos encostados um ao outro em silêncio. Olhámo-nos com olhos profundos, tristes e com medo de alguma dor. A felicidade deste momento podia acabar como no passe de mágica com que tudo começa. Imprevisível e inesperadamente. Seríamos o sonho das estrelas da noite?
O desejo pedido às estrelas encaminhou na direcção certa a flecha disparada. Sabíamos. O desejo de amor que numa noite de estrelas nos acertou e se consumiu através de nós. Os corações saíram disparados na direcção do outro. Uma partícula do pó do cosmos tinha-se junto a ambos para se experimentar. Éramos parte da poeira estrelar. Ficámos dentro do amor.
O sol renasceu e ganhámos a capacidade de sermos eternos. Ficas comigo, quis saber? Quero! Mais que tudo, preciso! Ficaste.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Ser ou não ser racista, eis a questão



Na espuma dos nossos dias,

Estou grata a Shakespeare por o poder usar.
Eriça-se-me a carapinha lisa.

Esta corrente, nascida com a biologia nos finais do século XVIII, mas usada como expressão só no século XX, não é uma teoria científica, mas sim pré-conceitos reunidos sob a forma de opiniões. Já vem da Antiguidade.
Distinguiu o preconceito providenciando-lhe uma identidade. A identidade racial.
Daí Morgan Freeman dizer que “quando se deixar de se falar nesta identidade racial, desaparece o problema”. Verdade.

Este conjunto de opiniões foi usado para justificar a escravidão, usada por Hitler, usada por Marx, usada pelo regime do apartheid, usada pelos árabes contra os negros, usada pelos católicos, usada pelos hindus nas castas, usada pelos judeus contra muçulmanos, só para dar alguns exemplos, visando eliminar pessoas com características exteriores diferentes, incluindo a etnia, a religião, o meio cultural, cor da pele e o meio sócio- económico.

“Não vimos dos macacos mas para lá caminhamos” frase de Gobineau no século XIX que desacreditava Darwin que segundo alguns era racista e promovia a eliminação de raças inferiores por raças superiores. Tenta-me a vontade de adaptar a frase de Gobineau aos nossos dias.

Sinto-me racista. Porque tenho um preconceito contra todo o conjunto de opiniões reunidos para classificar a identidade dos seres humanos em duas classes: os superiores e os inferiores tendo por base a palavra raça inventados por quem quer “dividir para bem reinar”.
Alguém tem dúvidas que é só uma? Escreverei isto até ficar sem falanges nas mãos e começar a escrever com os dedos dos pés se for preciso.

Como disse alguém “entre a educação e o crime organizado só há uma diferença- é que o crime é organizado”!
A única forma de vencer este crime contra a humanidade é pela educação. Casa, família, escola, sociedade, organizem-se, digo eu.
Usem a inteligência para explicar aos vossos filhos e alunos como se tivessem 2 anos, que por baixo da pele, o sistema circulatório, reprodutivo, digestivo, respiratório é igual para os dois géneros humanos.

Sou filha de brancos, pretos, mulatos, indianos e de outros fenótipos mas ainda não regredi para macaco. Sofri na pele essa infâmia de me distinguirem pela cor da pele e o cabelo carapinha (fenótipos). Ultrapassei o assunto porque me foi explicada a NÃO existência de diferenças por debaixo da pele. Depois expliquei isso ao meu filho que sofreu as mesmas discriminações.
Hoje, continuo a observar estas discriminações contra vários fenótipos, etnias, culturas. De uns para outros e no sentido inverso. Fico de entranhas revoltadas por uma razão.

Porque funciona mesmo a arte propagandística de “dividir para bem reinar” usando a estupidez e a ignorância das pessoas (brancas, pretas, indianas, chinesas etc etc). Que usam as diferenças exteriores para repelir uma pessoa ou grupo. Vindos da má-fé, raiva, vingança, rancor, falta de educação ou de formação moral e ética.
Perceberam? Estes sentimentos e emoções são comuns a pretos, brancos, chineses, comunistas, cristãos, judeus, muçulmanos, hindus, ciganos etc. São sentimentos da espécie humana.

Regredirei se não ensinar aos meus filhos e netos que a identidade racial é uma invenção. Que não existe uma “raça” superior a outra. Não existe grupo superior a outro.
E que usar essas diferenças é uma estupidez que nos torna seres bem menos capazes e menos inteligentes que os macacos.

Gosto de bananas como os macacos, mas não sou macaco. Sou humana. Se calhar caminhamos para a extinção como raça isso sim, por não sabermos usar o que nos distingue dos animais. O raciocínio.

Já descemos das árvores, ou evoluímos, segundo as várias teorias, e somos homo sapiens preto, branco, amarelo, arco-íris, com nariz e boca grossa, olhos em bico, e pintas na testa.
Só primamos por sermos diferentes nos meios: culturais, familiares, sociais, económicos e educacionais e que são estes que provocam as diferenças e acicatam os ódios na nossa comum e única espécie.
Simples.
Incluindo as “belly dancers”, acrobatas e bailarinos.