terça-feira, 20 de maio de 2014

Desculpem “Matei o ministro da Saúde” e da Educação e da Justiça



Na espuma dos nossos dias,


“Nunca me senti tão profundo e ao mesmo tempo tão alheio de mim e tão presente no mundo” Albert Camus

Enquanto um número infinito de factos terríveis acontecem, nós observamos o jogo nas nossas consolas.
Enquanto estamos sentados nos sofás a ver a troca de cadeiras e promessas vazias da campanha eleitoral.
Enquanto celebramos as vitórias do clube do coração e que nos traz sorrisos.
Enquanto fazemos contas para chegar a meio do mês com pão na mesa e ficamos menos saudáveis por comermos mal.
Enquanto não sabemos se podemos tirar 1 semana de prazeres simples na casa de praia da tia, para nos alienarmos do que nos rasga a alma.
Enquanto…
As guerras acontecem com o intuito de destruir para que posteriormente algumas corporações se instalem a reconstruir e a fazer lucro.
As eleições acontecem para que uma dúzia beneficie e troque favores, limpando-se mutuamente como bons irmãos ligados pelo crime. As leis que coloquem o cidadão no centro das decisões não se fazem, porque somos apenas poeira.
A globalização está prestes a acabar como a conhecemos, porque vai ficar tudo tão caro, nós ficaremos sem poder de compra e deixará de ser rentável termos bananas da Venezuela a €0,99 contra as da Madeira a €1,99.
Que fizemos para ter isto? Primeiro fomos escravos dos vampiros que nos sugaram a alma. Agora mudaram as roupagens aos escravos e os vampiros sugam-nos o sangue… da alma.
Vejo este jogo brutal!

Coitadinhos que somos. Esta frase tão portuguesa e que serve para tudo…
Em Espanha uma mulher na política que se governava bem, foi assassinada por uma cidadã para quem a vida se tornou ingovernável. Sem dinheiro, sem apoio, sem trabalho, sem luz. A única luz vinha de um TGV na sua direcção. E esta mulher-cidadã, com contas, com filhos, com casa, com vida para se cumprir, decidiu matar quem representa que lhe matou a vida. E iniciaram uma campanha publicitária “desculpem, mas tive de matar o ministro”.

Enquanto isto, nós coitados acompanhamos o jogo nas nossas consolas.
Enquanto isto tudo acontece, só me apetece ausentar da minha consciência e enquanto no mundo, escrever.
Cartas de amor para equilibrar o sofrimento. Rir da inércia colectiva. Chorar pelo fardo que não posso carregar.
Coloco-me a questão: será que se oferecêssemos mais rede uns aos outros mudaríamos alguma coisa?...
Escrevo com pena de nós. Coitadinhos que somos como diria o Kalimero.
Mas com uma certeza, desculpem, quando sair vai ser limpinho, desisti de reincarnar.


segunda-feira, 19 de maio de 2014

Tirar a poeira dos sonhos



Psst disse-me a lua, anda comigo. Vou-te pegar no meu colo para juntas tirarmos a poeira dos sonhos. Para onde vamos quis saber sôfrega? Vamos onde a estrada não acaba. De mãos dadas, percorrer os caminhos que desafiam os nossos desejos, as nossas ansiedades, a nossa sede e a nossa fome. Fome e sede de sonhos onde o nada vale por tudo. Desejo e ânsia de sonhos que não acabam. Feitos de tudo para que nunca acabem em nada. Com a boca vou-te contar segredos, pousando ao ouvido da tua. Vou juntar-me ao teu peito no lugar onde adormecemos as nossas almas puras, nuas e fazer-te entender as cores dos sonhos. Eles vão dentro das malas que guardam as viagens, num arco-íris de prazeres.  
Já chegou a noite e tu com ela para me desassossegares, mas sem ti seria meio inteira. E num passo leve e sensual, a flecha certeira faz alquimia na minha imaginação. Vou contigo sim, sentar-me no teu ventre e fazer o que me resta, tirar a poeira dos sonhos. Ou guardá-los na mala para a próxima viagem, num dos meus sonhos. Voei para um lugar sem gravidade para deixar o peso do que não me faz falta. Bem vistas as coisas lua, nem preciso de dormir para sonhar. Apenas preciso de espaço para dar lugar aos novos sonhos.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Nós




A minha alma anda doentiamente magoada com as atrocidades diárias sobre as pessoas em todos os cantos do planeta que estão a matar serenamente gente, a sufocar lentamente gente, por gente que gente não é certamente. Os meus dedos e o meu espírito ficam incontrolavelmente indomáveis e sedentos de encontrar as teclas para formar palavras, pensamentos, ideias que exterminem a angústia. Rodeada de livros onde busco nos seus troncos as respostas e encontro o meu descanso. Esqueço-me da divisão dos dias e da noite. Dias que começam e acabam sem que a rebeldia morra. Como o pequeno-almoço às onze da noite, e tomo o pequeno-almoço às três da tarde na companhia do movimento dos planetas, na nave mãe que gira livre e despreocupada. A sorrir dos nós com que nos atámos. Ela sabe que o seu sol não lhe falha, enquanto que nós…pobre gente atada com nós, de nós mantém-se aprisionada e dos nós não se desfaz.


Não existe linha de chegada para o que queremos fazer nem linha de partida para o que vamos fazendo. Basta decidir seguir a corrida na pista sem medo de perder ou ganhar, mesmo não sabendo como e o que fazer. O sol amanhece de novo e mais um ramo vai aquecer para nele me encostar a descansar do nó que me prender.