segunda-feira, 23 de junho de 2014

Arte e repressão

O país está na forca sim! Enforcado. Preso pelos tomates! E dói!
E a liberdade de expressão significa podermos dizê-lo sem repressão vinda dos que não concordam connosco.
Recentemente escrevi sobre o facto de nos quererem ignorantes, em silêncio, sem pensar.Está no meu blog.
Sobretudo aqueles que através das suas artes, sejam elas quais forem) manifestam crítica e intervenção social. Não podia deixar de estar ao lado do jovem artista que simbolicamente com este retrato mostra o que a maioria pensa, escreve e diz. 
Porque se trata do estado em que estamos a sobreviver. E vai a tribunal responder por isso. Então eu também vou. É justo. Escrevo coisas piores do que a imagem que nos retrata como Nação. Porque amamos a nossa Nação. Que está na forca. E por isso a queremos longe das mãos dos nossos algozes.
As artes, todas têm pés para andar, o chão é que está feito de pântanos.
Num lugar onde educação e cultura cada vez têm um papel mais irrelevante para não estimular o pensamento, aceito gente que pense de forma diferente da minha, mas assumo-me intolerante para quem tem uma visão terceiro-mundista da vida. Sem pensamento ou sem coração.
Dizem que a felicidade pertence aos ignorantes. Então deve ser por isso que vejo tanta gente por aí, calada e feliz...


domingo, 22 de junho de 2014

Razões para sair da Matrix

«O mal está tão generalizado, tão disseminado que está transparente» Jean Baudrillard

É justamente neste momento que a minha fé e esperança se reacendem. Um asteróide atingiu a terra há milhões de anos e destruiu os dinossauros. Nós podemos ser o asteróide dos tempos actuais como bem relembra Noam Chomsky, com quem concordo. Como poetas, marinheiros, artistas, gente que pensa e gente que sente, também somos o asteróide capaz de mudar de repente e sem aviso o rumo que tomámos.
Todos sabemos que no mar, o vento pode mudar subitamente e desviar o destino do barco. É a nossa infinita capacidade de criar quando estimulados pela curiosidade, de imaginar, resistir, pensar, de se deixar ir, de reagir por impulso, todos estes elementos combinados que fazem de nós a massa capaz de construir de novo. De arranjar novos rumos, novos destinos. De ver o mal que se tornou transparente e corriqueiro e destruí-lo. Também somos o asteróide da renovação.
Estou inspirada a fazer do pedaço de tempo que me restar nesta minha passagem, uma fuga em grande da matrix em que vivemos «persuadidos a gastar o dinheiro que não temos, em coisas que não precisamos para criar impressões que não duram em pessoas com as quais não nos importamos» trabalhando infinita e de forma desgastante para obter esse dinheiro.
A revolução pacífica irá acontecer aos poucos. Eu vou dar um passo nessa direcção, como muitos já estão a fazer. Hoje uma ou duas pessoas e amanhã com muitos mais. Com todos aqueles que agarraram o lenço e não o deixaram fugir com o vento violento e repentino que nos varre.
Contra o vento que sopra, agarro no meu lenço para que não me voe e caminho. A dançar a minha dança para fora da matrix. Construindo o meu moinho de vento.

"Aqueles que foram vistos a dançar foram tidos por loucos por aqueles que não ouviam a música". Nietzsche.

Uma notável entrevista

sábado, 21 de junho de 2014

Reencontro

Micro Conto,

Ele chegou sem avisar. Aproximou-se lentamente sem pedir licença. Encostou-se-lhe ao  braço. Que olhar sereno disse. Sorri-lhe. Vem com os aniversários. Quando deixamos a vida acontecer. Posso-te fotografar? quis saber ele demorando-se no olhar. Sim, se quiseres disse-lhe ela, com um ar sem muito interesse. Vamos deixar a vida acontecer num jantar? Na companhia de quem gostamos, uma refeição cuidada e um vinho alentejano em conversa sem fim e sem princípio. Humm…prefiro vinho do Douro disse-lhe ela, olhando-o pela primeira vez com atenção. Ele continuou, e eu é que cozinho. Está bem, não vamos ter a primeira discussão. Desde que eu possa dançar à volta da mesa. Ele estendeu-lhe a máquina para ela olhar a sua própria imagem. Parece-me que te conheço desde sempre. Posso roubar-te um beijo disse-lhe ela? És uma feiticeira disfarçada de anjo disse-lhe ele, enlaçando-a pela cintura.

Como num livro que se abre e conta as histórias que encantam vidas, a vida de ambos abriu-se num livro com uma história comum, caminhando em paralelo. A vida demorou-se nos dois. Ambos se redimiram afogando os sentidos no oceano de prazeres e sabores que tinham para se trocar.
Durante anos dançaram, jantaram alternadamente pratos feitos por ele e por ela. Juntaram fotografias a dois. Beberam vinhos doces, vermelhos, secos, maduros. Partilharam frutos trocados nos lábios, com beijos quentes. Dormiram aconchegados no ninho que o corpo oferecia. Ele deixava-a adormecer enquanto lhe murmurava poemas ao ouvido e velava-lhe o sono. Despediram-se um cento de vezes mas regressavam sempre para o outro. O reencontro, combinavam, era no mesmo lugar da primeira vez.

Ela não apareceu da última vez. Ele permitiu que o tempo infinito se demorasse a esperá-la. O peso da ausência dela deu lugar à leve melancolia do vagar dos dias.

Sufocava nas lágrimas. Sem pedir licença ela chegou e deitou-se ao seu lado lentamente. Não se preocupou em fingir que não chorava. Ele respirou profundamente e com um último esforço, encostou-se-lhe, procurando o calor que o corpo dela emanava. Posso roubar-te um beijo pediu ela? Num suspiro junto de um murmúrio ao ouvido, como tantas vezes tinha feito, ele rogou-lhe para que não se esquecesse de lhe roubar os beijos que tivesse vontade.
Voltaria sempre para ela. Esperaria sempre por ela e ela tinha regressado. Ela murmurava-lhe poemas ao ouvido enquanto lhe velava a partida da alma. Roubava-lhe em silêncio os beijos que perdera. Beijos que carregavam palavras. Procuraram demorar-se ao descobrir a redenção daquele momento. Nunca se tinham perdido. 
Reencontravam-se.

sOLsTicío de Verão

Ali estava ela. A vida. Plasmada a cores garridas. Prisioneira de beleza azul como o mar. Tinha entregado a mensagem numa garrafa cor de solstício. Ao Sol que a entregara, radiante, e, lhe dissera, por ali é o teu caminho, deixando-a entregue ao ritmo das ondas, no oceano bravio e revoltoso, ou nas margens quietas e silenciosas. Quando a lua estremunhada deu um último beijo ao seu amor sol, numa despedida em busca de mais tempo, nasceu. Esse, o tempo, tinha-o pouco demorado, assim lhe tinha sido dito. Vai, apressa-te a ser. Um dia ouvirás as palavras «ser ou não ser». O quê? Não saberás, partirás à descoberta. Aprenderás com o caminho. Não te demores com quem te quiser indicar a direcção. Não te preocupes com o objectivo. Apenas com a corrente. Ela está à vista no teu coração. Flutua, mergulha, nada. E sê tudo. Vê tudo. Sente tudo. Quer tudo. És o esplendor e a força da aventura da criação. A manifestação dos teus sonhos impossíveis. És energia pura. Capaz de perceber a força intrínseca de quem és, de quem vais ser. Aprenderás que nada está errado no teu caminho único. Brilha, semeia, colhe, fortifica as tuas raízes. Se amares e não receberes na mesma medida, entrega numa garrafa ao mar que te recebe. Divide com a onda que se aproximar. Ela irá entregar a quem esteja aberto a receber a tua dádiva. Não morras com interrogações. Morre com a certeza de teres sido. Nesse dia partiu. Partiu em direcção à vida.

Nasceu no solstício de Verão.

Dedicado a mulheres vítimas de violência. Começar de novo de Ivan Lins com Gonzalo Rubalcaba

https://www.youtube.com/watch?v=RRHyVHUiRtk

quarta-feira, 18 de junho de 2014

50 anos

Sou hoje uma versão diferente comparada com o dia de ontem. Amanhã serei mais completa.
Chegamos incompletos e vamo-nos construindo. Espero partir como versão completa de quem me propuser ser. Hoje tenho uma ideia de quem sou, amanhã quem o saberá?
Recebi avisos sérios da vida e dizia-me ela: - se não corres riscos não te transformas, nem cumpres o teu papel de te tornares essa versão melhor no tempo que te restar.
Aprendi a obedecer-lhe. E a agradecer-lhe. Como ninguém está feliz sempre, aprendi a pelo menos sorrir diariamente. Se me virem sempre feliz significa que os comprimidos estão a fazer efeito…
Agradeço profundamente o meu meio século e a quem mudou a sua rota para cruzar o meu caminho. Hoje um caminho feito sobretudo de letras. Não saberia estar noutro. Mas se mudar amanhã, aceitarei.
Estarei a celebrar os 50 anos, no dia do meu nascimento, a apresentar os traços de uma vida de viagens, de novo em casa, em Santo André e na minha Ítaca. Tento perceber-lhe o significado e se ela não fosse, não teria partido nestas viagens. Que melhor poderia eu pedir?
Como uma sinfonia entre o allegro, moderato, lento, rápido, minueto a nossa vida é uma construção sinfónica.
Dancemos ao ritmo de mudança de caminhos, de quem somos, de quem queremos ser, de nos melhorarmos!

De mão junto ao coração e o sorriso que dele vem. Obrigada.

Regresso a Ítaca. A minha Ítaca. 
As minhas viagens rimam com Ítaca.
Cada palavra deste magnífico e grandioso poema é a minha vida. 
Foi-me oferecido pela minha amiga que percebe tanto de mim 
Isabel Duarte. 
Levei-o para dentro do meu livro. Fica lá eternamente. 
Representa-me para sempre.
Nas apresentações do livro o meu filho 
Guilherme  leu-o e a minha Tê também. Emociona-me sempre. Muito.
Partilho-o aqui e empresto-o ao meu filho 
Francisco  que o queria ler para mim.

terça-feira, 17 de junho de 2014

3º Mundo e o pensamento

Respondendo a um (a) lobotomizado (a) que criticou um dos meus textos, naturalmente escrevo. Gosto de críticas e confrontos. Que usem o pensamento. Não foi o caso. 
Respondo a todos os que continuam a tocar a música na mesma e única nota de “os portugueses estão mal habituados” e pergunto: O que significa a vida para vós? Mesmo que haja maus hábitos a corrigir, que os há.

De onde vem a cegueira que invadiu o sentir dos vossos corações e o branqueamento da razão no vosso pensamento?
A vida a que nos devemos habituar é a de ser miserável e deixarmo-nos subjugar por gente de pensamento terceiro-mundista?

Eu não acredito no 3º mundo, acredito que há pessoas que fazem tudo para convenientemente manter o 3º mundo, na medida dos seus interesses.

Ou no 3º e 4º mundo (em que nos estamos a transformar) vivemos mal habituados tamanho é o conforto? Tenho passado largos anos no chamado terceiro mundo e garanto que a visão dos esfomeados é ter uma vida livre, sem fome. Sem fome de nada do que pertence ao ser humano por direito inerente à vida. Tal como vem escrito na Carta Universal dos Direitos do Homem herdados da Revolução Francesa, a que vem nas Cartas das Constituições Democráticas, sendo a mais democrática a da RSA pós apartheid até chegar à Portuguesa.

Não sou do tipo de passar a vida a lamentar-me. Experimento a vida fazendo, agindo, indo à luta com ela. Deixando que ela me indique o caminho do que não posso controlar e dando passos para agarrar qualquer oportunidade. Sei ver com o cérebro e com o coração as maravilhas que me rodeiam e quero que todos os outros as vejam também. Porque esse direito nasce igual para todos.

Mas passo e passarei a vida a lamentar a visão terceiro mundista de quem nos quer nesse mundo e dos que julgam que esse é o melhor para nós.
Até passar para um universo paralelo, ou ver este universo em paralelo com a visão que tenho de um mundo desenvolvido. E o pior é que nos querem uns contra os outros. É o biscoito da manipulação e ainda há quem o coma e digira.

Em política não existem certezas nem verdades absolutas. Existe pensamento e atitudes. Que geram acções. E as que estão a ser geradas são terceiro mundistas, por gente que nem usa o pensamento. Para quê eles próprios lerem, estudarem, pensarem? Usam apenas os modernos manuais do grande filósofo Tiririca e do tio Patinhas.

Por enquanto temos fome, doenças físicas e mentais agravadas pela austeridade brutal, mulheres que morrem pela violência e discriminação, homicídios fruto de uma sociedade violenta, suicídios, crianças mal nutridas, homens e mulheres sem perspectivas, velhos sem cuidados. Países sem direito a educação, justiça, e a saúde para todos.

Todos temos o dom de pensar e a obrigação de usar esse pensamento e o coração, para servir os melhores interesses e a qualidade de vida da humanidade. Essa é a minha visão da vida.
Os seres humanos vêem com o cérebro não com os olhos. Usemo-lo em conjunto com o coração para sermos dignos desta grande experiência que é a vida.


Num lugar onde educação e cultura cada vez têm um papel mais irrelevante para não estimular o pensamento, aceito gente que pense de forma diferente da minha, mas assumo-me intolerante para quem tem uma visão terceiro-mundista da vida. Sem pensamento ou sem coração.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Peço uma aclaração…

http://www.videosvirais.com.br/esse-jornalista-explicou-para-os-americanos-como-a-fifa-vai-arruinar-o-brasil

Na espuma dos nossos dias,

Peço uma aclaração…

Experimentar a infelicidade não é uma tragédia, é experimentar a vida. Mas experimentar infelicidades permanentes e simultâneas é dar à vida o sinónimo de tragédia.

Um polícia existe para salvaguardar a lei e os cidadãos. Se um cidadão comete uma infracção e for multado não lhe diz: escolhi-o mal, não se está a portar bem ou ainda, o senhor agente é um irresponsável…
Irresponsáveis somos nós quando escolhemos mal os nossos governantes, os potenciais governantes que se blindam em estatutos para não largarem as rochas partidárias como as lapas, os representantes na Europa, na Europa quem manda em nós, e até os seleccionadores e os jogadores segundo leio.

Não me podia importar menos com o futebol. Mas se o futebol fosse desporto como já foi, talvez ficasse mais sensível. Como desporto nada me diz e como prática pouco honesta de competir quando envolve a organização que conhecemos, perco ainda mais a sensibilidade. No entanto tem algum reflexo com a vida infeliz no nosso país. Somos cá dentro (e na selecção) fracos e sem brilho. Lá fora, irradiamos carisma. Cá somos pisados como uvas. Lá, também.

Não ligo desporto com a realidade política/social. Mas é inevitável não sentir desgosto por ter de viver numa realidade infeliz no dia-a-dia, onde a mentira e a manipulação até à fome são quem nos governa onde o único alívio cómico nesta tragédia que vivemos se chama futebol. Que apenas alivia um pouco a tinta borrada da máscara do mundo feio e inóspito em que vivemos.

É inevitável não sentir desgosto ao ter consciência dessa máscara. Temos pés para andar na cultura sob as várias expressões de arte, música, letras, teatro, em várias profissões, na Educação, na Ciência, na tecnologia, mas não temos solas nem chão para pisar. Nem nunca mais vamos encontrar empregos. A não ser alguns poucos artistas protegidos. Também os do futebol. E os artistas da política. Esses é que merecem camas feitas com espigões.

É inevitável não ver o chão da política, do desporto, da cultura, da vida em geral manchado de sujidade. É inevitável não querer continuar a querer escolher entre dois males. Acabamos sempre com um mal. Que nos leva a nova tragédia.

Se houvesse justiça poética como nas tragédias, a final seria entre duas quase rainhas, a dona Letizia e a dona Dolores e não entre a Dona Merkel e a Dona Dilma. Hoje estamos azeitados, mas se não mudamos de guião vou-me refugiar louca, numa torre na Zarzuela para me esquecer que o mundo gira nos pés da insanidade.
Somos mesmo camelos sem aclaração!