quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Permissão para te odiar com amor

Estende-me a tua mão

Embrulha-me no teu calor

Desconhecia que respirar podia ser
Apenas uma dor no peito
que me prendia à vida
no amor de te perder
na permissão que te dei
para me odiares em nome de um amor
perdido e desconhecido da lei do amor


No dia em que deixei
Que a raiva do teu coração
Se espalhasse dentro do meu ser
Ganhei o gelo vindo da tua violência
Perdi a minha mão, a minha vida, o meu chão

Só me resta
Pedir-me:
devolve-me para sempre a minha mão


Não deixes que te amem assim, até que a morte vos separe. Violência não é amor. É crime. É apenas violência.
Não permitas que te aconteça.

Conto escrito em homenagem às mulheres que morrem vítimas da violência doméstica:

Permissão para te odiar com amor

«Pensa em portar-te bem! Se contas a alguém juro que morres. Mato-te com as minhas mãos foda-se!»

«Perdoa-me meu amor amo-te, desculpa-me. Não sei o que me aconteceu…»
«Sem ti não respiro…és toda a minha vida. Amo-te. Desesperadamente…»

Mila já ouvira estas frases tantas vezes que se tornaram o seu mantra de vida. Desde que os amigos não sonhassem…
Procurava sempre esconder e já tinha a arte e a manha para o fazer. Anos de prática e conseguia sempre encontrar uma desculpa para o que Luís lhe fazia. Há oito anos. Estava exausta, mas não sabia o que haveria de fazer sem Luís.
Nem com a sua vida…estava numa armadilha, sem um fio onde se agarrar para se puxar para dela se escapar.

Não se importava muito com a ameaça. Luís usava-a constantemente.
Mas não a colocaria em prática. Amava-a disso tinha a certeza. Nunca a queria longe por muito tempo. Tê-la na sua companhia era a vida dele. Ele precisava tanto dela…

Raramente viam amigos ou família. Ele sentia-se infeliz e só ela sabia. E a companhia dela era a única que o deixava calmo. Também violento. Bebia cada dia mais. Chorava agarrado à sua cintura: «Nunca me deixes, não sei viver sem ti, és a minha âncora, o meu porto. O meu refúgio. A minha vida».

Depois de lhe ter batido a primeira vez. Fora um estalo.
Descontrolou-se. Por um pequeno nada.
Deu-lhe um estalo.
Ela perguntou-lhe porquê? Ele ficou paralisado. Abraçou-se a ela e chorou a pedir desculpa usando pela primeira vez a frase que acabaria por ser um mantra: «Perdoa-me meu amor amo-te, desculpa-me. Não sei o que me aconteceu…»
«Sem ti não respiro…és toda a minha vida. Amo-te. Desesperadamente…»

Mila era o único amor da sua vida. Compreendiam-se tão bem. Bastavam-se. Eram dois serem numa única vida. Inseparáveis. No amor. No medo de se perderem. Como tantas vezes o amor nos surpreende com o medo da perda do outro.
Mila questionava-se como poderia ela viver sem o amor de Luís, tal como Luís lhe dizia repetidamente…

Pouco tempo depois de se começarem a amar, a vida deles juntos, tomou um novo rumo. Estariam para sempre unidos. Eram o oxigénio que cada um precisava.

Mila era o amor da vida de Luís. Este saber, vinha de dentro da sua pele. Sentia-o nos ossos, na alma. Às vezes também lhe doía por tanto o amar.
Ele retribuía esse amor. Estavam um para o outro em todos os momentos e circunstâncias. Assim deveria ser num relacionamento. Era seu dever respeitar a vontade dele. Em nome do amor.

Aos poucos sucedia-se o descontrolo. Os estalos. Puxava-lhe o cabelo e arrastava-a até ao chão. Pontapés. Pegava no cinto e batia-lhe nas pernas. Cada dia mais sádico.
Amor e ódio confundiam-se na sua cabeça. Pavor e angústia passaram a ser o seu drama em cada dia.
Esconder-se dos outros era a sua obsessão. Vergonha, medo, humilhação. Medo de o perder. Medo dele…

Chorava angustiada quando ele a abraçava a pedir perdão. E quando ele começava a bater-lhe. Já nem sabia o motivo por que ele se descontrolava. Nem sabia o que havia de fazer para lhe dar prazer e satisfação. Tinha perdido a criatividade com o tempo.
Com o tempo apenas lhe restava o medo de sair.

O seu refúgio único era no desespero do seu medo: enquanto ali se escondia,procurava constantemente uma forma de se defender da próxima violência.
Secretamente esperava que ele mudasse. Em nome do amor. Ele fazia sempre tudo por ela. Nunca tinha querido outra depois de a conhecer.

Não lhe podia pedir para procurar ajuda. Ele ficava ainda mais violento. Mais agora que nunca. Mais agora que sempre. A culpa só podia ser dela.

Depois de cada crise ele pedia perdão. O amor por ela era tanto…afirmava.
Ela perdoava,porque sentia que o que ele lhe dizia era verdadeiro.
Mesmo que não fosse, ela tinha desistido de procurar outra resposta. Estava morta por dentro.

Tinha tanto medo…queria desaparecer da face da terra. Ou que ele mudasse…para serem felizes.
Em vez disso, sucediam-se as crises violentas.
Estava tão cansada de lutar. Nem sabia quem era o seu inimigo maior…Se ele, se ela própria com o seu medo e vergonha.

Naquela noite, ele estava zangado com alguma coisa. Ou sem razão nenhuma.
Ouvia-o gritar a culpá-la. A dizer-lhe quanto era inútil.
A voz dele chegava-lhe por entre o barulho dos seus soluços.
«Pensa em portar-te bem! Se contas a alguém juro que morres. Inútil, mato-te com as minhas mãos, foda-se! »

Atirara-a para cima da cama e obrigou-a a fazer sexo. Cheirava a álcool como era seu hábito. Ela pediu-lhe que não fizessem porque se sentia doente. Há muito que o sexo entre eles tinha apenas uma forma de ser praticado. Sempre forçado.

Seguiram-se injúrias, humilhações enquanto as lágrimas lhe corriam livremente e ela gritava em desespero «por favor, não! deixa-me ir embora».
«Sua puta é o que tu queres? Vais tê-lo…»

Tinha-se escondido tão bem, de todos, que apenas o silêncio lhe servia de companhia. Quem a poderia ajudar sem a julgar? Nem se atrevia a pensar. Era o saco emocional e físico onde ele descarregava. Tinha-a treinado para aceitar o que lhe fazia. Ela aprendeu. E isso era tudo. Não fazia ideia como desaprender.

Fora morta com violência, como tinha sido a sua vida nas suas mãos.
Um terramoto não avisa que vai engolir pedaços por inteiro, na vida da superfície da crosta terrestre. Avança, engole, rouba e provoca devastação e um impacto irreversível, na vida de quem sobrevive.

Ela tentou segurar a força devastadora da violência do terramoto que a atingiu. Fez o seu melhor. Sem nunca se ter dado a oportunidade de ser ajudada, ofereceu-se para o sacrifício de salvar o ego, a maldade ou a loucura dele.

A relação tinha-se tornado o lugar mais inóspito da sua vida e não chegara a tempo de a salvar.
Não conseguiu escapar ao que ele chamava amor.
Este amor mortal fora fatal para a sua vida.


sábado, 18 de outubro de 2014

Sexo e vida, leis e políticos

" É uma infelicidade da época que os doidos guiem os cegos” Shakespeare

Cuidado: atentem em mais uma fraude que faz com que a evolução da espécie esteja parada...

Querem-nos pobretes, alegretes (com a casa dos segredos e outros quejandos), adormecidos, obedientes, silenciados, culpados, rastejantes, pedintes e sem força anímica. De preferência e para culminar: sem sexo. Que não seja em idade de procriação.

Eu, mulher, entrada nos 50, sem produzir óvulos, mas inteira no conceito de prazer, aconselho, os juízes fechados em casulos, infelizes, escondidos nas togas, citiados e sem sexo, num mundo à parte do mundo; aos políticos cinzentos, infelizes, que nem sabem onde está o sexo:

- Um workshop original com strip-tease não apenas de contas mas daqueles inspiradores de prazer, onde não se usam togas, nem boxers, nem fio dental, com dança do varão, uma mesa, velas, uma boa cama redonda e de água, com “oficinas” práticas de sexo.

Para vos clarificar as ideias. Sobre sexo depois dos 50 em mulheres, sobre direitos, cidadania e o dever de desobediência. Para vocês os doidos referidos por Shakespeare.

A navegação vai entrando cada dia mais em águas obscuras, em submarinos sem periscópio para nos deixar no fundo do oceano, por isso convém não obedecer às ordens dos comandantes doidos.

Não se calem. Desarrumem-lhes as ordens. Destapem as burkas que vos tapam o raciocínio. Não os oiçam, em nada. E façam sexo, antes, depois e para além dos 50. Por prazer. Ou como diria uma amiga: “fazer o amorzinho”.

Porque é vital para a vida e se um juíz(a) não sabe disto, lamento, por ela(e).
Desplagiem quem nos quer a plagiar “ideias” que à custa de serem repetidas, se venham a tornar verdades.
O regresso ao obscurantismo está a caminho? Pois…E com esta era de doidos a dominarem cegos, os direitos são lesados e até os prazeres, convenientemente, nos querem tirar.
Esta gente doida é o verdadeiro vírus, que mata e atrasa a evolução. Porque foram infectados, os cegos, andam encandeados. 
Cansam-me a beleza.

Porque tem muita importância para qualquer ser humano, em qualquer idade, vou ali fazer o amorzinho, pelo amorzinho ao sexo, com muito prazer e, já volto para continuar a vida.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Vida e medo- Peça de teatro

Peça de teatro. Um diálogo entre dois personagens: O medo e a vida. Num dia solarengo, uma casa pequena, uma pequena varanda, uns degraus. Medo e vida vinham a atravessar a rua dirigindo-se a casa encontrando-se lado a lado. Fingiam não se ver.

Confundiam o dia e a noite. Sobrepunham-se sem limites. Eram de ambos e pertenciam-se. Mas recusavam sentar-se a beber uma bebida fresca e olharem-se nos olhos. Na casa que era de ambos.
Cruzavam-se com demasiada frequência, desde tempos imemoriais, mas o medo do confronto fazia-os olharem-se de soslaio, baixar a cabeça e atravessar com o olhar posto no chão. Fingindo não se verem. Durante uma vida inteira.

Naquele dia a vida, sentindo-se vulnerável mas determinada a não lhe dar mais poder, reuniu as suas forças, indo buscar energia ao seu amigo sol; sem medo do medo dirigiu-se-lhe convidando-o:

-senta-te comigo medo, vou-te dizer o que penso de ti. Vou-te dizer porque me assustas, porque me tens assustado e me deixaste marcas. Quero dizer-te que me vou perder de ti… (quase sufocava nas próprias palavras que a assustavam. O medo tinha uma força que nem ele próprio sabia, julgava a vida…).

Sentado ao seu lado, o medo, com o semblante arrogante, carregado de desprezo aproximou-se quase se colando ao ouvido da vida. Conhecia a sua força. Essa sua consciência fazia-o desafiar a vida em permanência. Poucos o ganhavam. Poucos o superavam.

“O que será que tu vida medrosa me queres dizer?” Soprando-lhe ao ouvido, enquanto se sentava observando o dia luminoso, com as cores garridas que a natureza oferecia para que a vida se inspirasse a chamá-lo.
“Que corajosa. Tão habituada estava a ser dominada por ele… No fundo a vida não sabia nada de nada…”

-Ouve-me bem medo, começou a vida ganhando coragem, inspirada pela voz que ouvia vinda do coração: a criatividade e paixão são os únicos estados naturais que quero conhecer na vida que me acontece. Farei para que aconteçam. Que sejam também o meu epitáfio quando a minha irmã morte me vier buscar. Do passado todos trazemos pérolas: as feridas cicatrizadas que foram cobertas com amor. São a referência que hoje devem dar lugar à criação de novas asas. São as únicas asas que quero que me acorrentem. Tudo o resto são hobbys, que levam ao cansaço e ao aborrecimento, que por sua vez levam à morte…da criatividade e da paixão. À morte da minha vida.

-Mas para que queres tudo isso? Qual a razão de criares? Irás a algum lado com essa imaginação? A criar? Isso é só poesia…ria-se o medo com escárnio

- entende-me medo, quando nada temos, mais criativos nos fazemos. O nada faz nascer a paixão por criar qualquer coisa. Mesmo criando um erro. Já não me assusta errar. Torna-me mais humana. Mais igual a todos. Nesse estádio sinto-me a única parte de um todo imenso. Ofereço as asas que a minha criatividade me exige. As asas com que nascemos todos. Que por tua culpa e pela repressão não abrimos.
Quando uma criança começa a mentir aos pais: nasceu um contador de estórias. Um bom pai anota e incentiva. Ensina as diferenças entre imaginação e realidade mas não mata a criatividade. Nem deixa que um muro comece a nascer. Entre a criatividade e o mundo assustador que cá fora a castra. Isso és tu que fazes…
Quando uma criança começa a pintar as paredes da sala e do quarto, um bom pai coloca telas e papel pardo pela casa e oferece canetas…
Todos sabemos o bem que sabe estar à beira mar a construir figuras na areia. As crianças não querem saber se o mar as leva na sua espuma. Um bom pai incentiva e colabora. Para que o medo de errar e começar de novo seja limpo pelo sal do mar. Mas tu chegas e destróis esses sonhos…
As crianças atiram-se sem medo. Não sabem que não sabem gatinhar, andar, correr. Fazem-no por intuição. Por instinto. Isso sou eu, a vida. Depois vens tu…interferir…
Tu medo, com a tua arrogância matas a criatividade, porque questionas a razão de se querer muito fazer uma coisa, e incentivas o medo de errar. Não queres que se deitem abaixo os muros onde nos refugiamos. Por ti medo…

-Tudo isso é muito bonito, mas o meu papel é esse. Vou continuar a estar atento à tua imaginação e fazer o que tenho de fazer: incutir-te medo. No fundo sou teu aliado ao bloquear-te: desafio-te a saíres desse muro. Devias agradecer-me…

-A partir de hoje, vou ser o melhor acompanhante da minha imaginação. Vou seguir o fluxo da inspiração. Aceito o desafio.
Hoje vou inventar estórias como se fossem verdadeiras. Com personagens como eu, ou com seres que nunca vi e nem sei se existem. Como uma criança com amigos imaginários. E oferecê-las para tocar outras imaginações. E voarmos juntas.
Hoje vou tocar piano como se fosse uma criança a aprender. Como uma criança, não sei tocar, mas na minha imaginação terei uma sonata de Mozart. Hoje dançarei mesmo não tendo ritmo. Como uma criança, na minha imaginação, sou capaz de desempenhar de olhos fechados a melhor coreografia de Isadora Duncan. Como uma criança, hoje vou pintar todas as folhas que me apetecer mesmo que não saiba fazer mais que riscos abstractos. Na minha imaginação terei trazido Velásquez à vida.
Eu vida, vou dar vida à criatividade que nasce da junção entre a intuição e o racional. Num lugar desconhecido. Vinda do nada e que se transforma.

-Porquê? Para quê? Quis saber desdenhoso o medo, já com algum medo de perder protagonismo.

-Porque neste mundo profundamente doente, feito por doentes terminais de uma epidemia desconhecida, talvez consigamos a cura através da criatividade. Não a matando. Deixando que as nossas crianças sigam o fluxo da capacidade de criação com que nascem. Na educação em casa e no ensino nas escolas.
A criatividade é ditada pelos padrões culturais de cada era. Talvez porque a matámos aos nossos pais, aos nossos filhos, esta era, está entregue a “artistas” psicopatas sem coração. Sem emoções. Sem sentimentos. Sem criatividade. Sem paixões. A quem castraram a criatividade. A quem deixaram que o muro da revolta e da maldade fosse crescendo à sua volta. Porque tu medo, te interpuseste. És o meu maior obstáculo! Sim, és!

-Eu controlo! Basta olhar para os jovens doentes à nossa volta, o que fazem de absurdo para se integrarem, aos políticos cuja única ambição e riqueza é querer poder e dinheiro, aos gangs violentos, à exploração dos recursos da natureza como se fossem infinitos e como se ela precisasse de vocês; aos seres que disparam e matam indiscriminadamente, aos que em nome de um Deus qualquer, deixaram que lhes escapasse o valor da vida…às tragédias que mulheres e crianças sofrem…e tantas outras absurdas doenças humanas…
Sabes a estória do Pedro e do Lobo? O medo levantou-se fazendo menção de se ir embora. Estava farto daquela vida que o começava a assustar…sabes a estória, continuou? Tanto medo por algo que não acontece, até que acontece…Ou então, medo para dominar e ter-vos debaixo de um controlo apertado tão simplesmente. É importante incutir-vos medo. Permanentemente. Vou continuar aí!

Soltou uma enorme gargalhada que deixou um profundo sabor amargo e triste na vida…de desamparo…

Para a vida a decisão estava tomada, com a convicção que só as crianças têm perante obstáculos: enfrentam-nos sem medo. Nem imaginam que a mão dos pais as está a amparar. A vida era agora uma nova criança. Determinada a ser finalmente quem tinha de ser. Alguma mão a iria proteger. A mão da confiança em si mesma.

-Vou apelar a que se rompa o ciclo afirmou a vida! A destruir os muros. A escravidão que nos deixa prostrados e rendidos a ti. Fazendo qualquer coisa criativa. A minha vida vale mais do que o teu domínio. Devemos começar já hoje a abraçar a criatividade. Vou começar já hoje a fazer qualquer coisa para criar. Criar para viver. Amanhã vou acordar a sentir que essa é razão de existir: vivemos para criar. No dever de nos encontrarmos, a criatividade ganhou todos os direitos da minha vida. Sem mais perguntar: “para que faço isto?”. Não vou voltar mais ao teu caminho medo. Não te tenho mais medo.

-Então e se não te der dinheiro? Nem prémios? Nem sucesso, nem exposição? Nem fama? Ou alimento? Ou poder? De que te serve a criatividade? Qual a razão para o fazeres? És ridícula, imatura, tontinha!!

-Não me demoves. Não tenho nada a perder. Aliás nunca tive, desde que tenho vida. Mas tive medo. Em quantidade suficiente. Chegaste ao fim na minha.
Faço-o para a minha evolução. Por ela tenho a obrigação, o dever e o direito de criar. E tu medo, já não preciso de ti nem como aliado. Menos ainda como meu obstáculo. Cresci. Tornei-me de novo uma criança.
Vai, segue a tua estrada. Desejo que tenhas tu também uma re-evolução criativa…sem medo de ti próprio…

Por fim, olhavam-se de frente…sem medo. Cada um cumpria a sua missão.
Vida e medo confrontavam-se, com a capacidade que vem unicamente da força criativa.
Finalmente, cheia de vida, levantava-se para mergulhar sem medo na água transparente da sua vida.


Fim

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Porquê a criatividade?!

Busco a excelência da Humanidade ?! Do Homem?! A minha?!
Porque crio? 
Porque é um objectivo elevado?! Porque é o objectivo da Humanidade!?
Muito mais alto que um Homem só. 
Por isso todos somos necessários. E todos estamos ligados. 
Como num livro, no final as estórias interpenetram-se, completam-se e conjugam-se. Escrevem-se no singular. Concluem-se no plural. 
Imprimem-se em nós.
Criamos como expressão para romper as defesas as defesas que nos impedem de nos auto-conhecermos?!
Crio para sentir. E saber que sou livre. 
Ou sinto para conceber?! Num acto de liberdade?!
Na busca antiga pela dignidade do Homem, o próximo acto de criatividade pode trazer a resposta...
Continuo a busca. Continuemos a busca.
De cabeça para baixo. De costas. Olhando em frente o que me observa. Ou às avessas.
Em perfeita similitude com um relacionamento,
Assumo um compromisso com a paixão
mantenho algum decoro e desapego com o conteúdo, para que a forma se molde em liberdade,
essa mesma liberdade que deixo com o objecto que trago à luz e me cria nova
que me faz ser a beneficiária de um orgasmo
de sentimentos e emoções surpreendentes que me possuem e completam,
através dos conflitos e das ligações que dentro me despenteiam, irrompem e tomam lugar
quando se disputam.


Um dia, a minha busca ser-lhe-á entregue a ela. E a ele. Ao meu sangue.
Continuá-la-ão em seu nome.
Notas individuais que se transformam numa canção. Com vozes em uníssono. De busca.
Como forma duma impressão, 
numa expressão pela excelência.
De uma nova dignidade. 
A da Humanidade.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

"Não os deixemos dormir, se não nos deixam sonhar"


John Adams, segundo presidente americano, "Existem duas maneiras de escravizar uma Nação. Uma é pela espada, outra através da dívida”. Num discurso em 1826.

Tenho por intenção morrer imperfeita! Ainda não irei nesta vida quebrar o ciclo das reencarnações. Na próxima vida, talvez me refugie num mosteiro, em um país longínquo, e, passarei os meus dias a jejuar, a meditar. Para atingir um nirvana que me estará reservado.
Quando este canto deixar, num nenúfar cor de outono vou-me ficar, a pensar em que pássaro me tornar. Mas para já nem digo adeus, nem me quedarei em sossego.
Daqui deste socalco onde me encontro, sem procurar a perfeição, apenas aproveitando a vida quase perfeita que a serra me oferece, pergunto-me: porque e como nos tornámos tão perigosos, se a ideia de Humanidade nasceu há tão poucos séculos?
E, antes mesmo de florir, ou antes de se cimentar no solo rico e adubado com a filosofia, o humanismo, o iluminismo, o renascimento?
Somos distraídos com a dívida (ler as palavras de J.Adams), com terroristas vários, do ISIS ao Ébola, (é mais provável morrer atropelada por um tuga inconsciente- e dos que votam-), quando os verdadeiramente perigosos vestem Armani e não sabem o que é isso de humanidade: esses são meros cientistas- com esta corja de humanos- que não serve para nada, a não ser como objecto de experimentação!
Querem que me sacrifique? Que os siga? Que lhes obedeça? Que pague dívidas absurdas? Que continue a ser uma consumidora cega? Que nem ouça? E muito menos que fale?
Neste país, ou antes, neste mundo perigoso e sequestrado pelos interesses económicos, onde a manipulação é a ordem de ataque, vou obedecer?
Em nome de quê? Por quem? Por quem já perdeu a legitimidade (ou nunca a teve) para me governar ou governar em meu nome, ou tem poder sobre o que quer que seja?
De erros Cra(t)ssos em erros de programação, o país encontra-se Citiado, o mundo em perigosa queda livre e eu, encontro-me envergonhada com a manada que comigo se pastoreia. A erva verde está deste lado do pasto, de quem se rebelar. A outra margem está poluída como o Ganges, onde se lavam almas numa cadeia invisível, mas que ainda nos tentam convencer da sua bondade.
Na irracionalidade dos nossos dias querem-nos ricos em ignorância e medo. Presos por dívidas. Ou mortos às carradas (sobretudo aos pretos- esses não dão jeito nenhum estarem vivos- e a consumir os recursos de um tão absurdamente rico continente) já que não nos suicidamos colectivamente.
Para ficarem apenas os que têm capacidade para pagar e consumir.
Prometo não me submeter, não me render, não arranjar desculpas para não fazer o que estiver ao meu alcance de não desperdiçar a capacidade do poder das palavras. Descalçar-me-ei até que a terra seja o único apoio da minha nudez. Para que esses outros bem vestidos não vivam descansados.
Como um analfabeto, depois de rever o Carteiro de Pablo Neruda, apetece-me fazer metáforas:
-Vivo num enorme bar aberto, de alterne...
As alternadeiras sucedem-se sem escrúpulos.
Até se zangam de vez em quando por causa dos clientes...
mas, também levantam os aventais para se protegerem.
O que se passa dentro do alterne fica dentro do alterne.
Se sou o que penso, como dizem alguns gurus dos retiros daqueles que querem pôr fim ao ciclo de reencarnações, informo que tenho pensamentos escondidos no meu inconsciente que me dizem que só me resta soltar as correntes e escapar.

E pedir a quem é feliz e forte para ajudar os que menos podem, para quebrar este ciclo de manipulações e sequestros de quem apenas quer a paz de uma vida tranquila, até chegar o fim natural desta sua reencarnação.

sábado, 4 de outubro de 2014

Vida e morte

Como num pacto de sangue,
para a eternidade,
vida e morte, 
irmãs siamesas
dão as mãos
em simbiose perfeita.

Um dia,
num dia único,
como tantos outros dias únicos,
a luz da irmã vida
extingue-se.

Nova luz se reacende,
A da irmã morte,
a iluminar um novo caminho.

O espírito eterno
supera-se, livre,
por fim.
Liberto do peso da matéria,
não é mais cego,
porque vê...
com clareza.

Já não mais tem medo,
porque se torna
apenas essência.
Memória.
Nos outros.

A irmã vida,
breve e ilusória,
transforma-se,
diante do trilho que pisamos,
a que chamamos, nosso caminho.

A imagem,
dela, vida,
a sua irmã morte,
vive ao lado, segura de si,
porque certa e infalível.

A lembrança de quem parte
Ah! essa terrível memória
que teima em se agarrar...
fica exilada,
na corrente que a amarra ao coração
de quem é deixado
com a irmã vida.

Até ao dia em que transformados em pó,
de estrelas,
em pequenos grão reluzentes,
a irmã morte,
reacende a sua luz
para a irmã vida,
e por fim,
se reencontram…

e como num pacto de sangue
para a eternidade,
tudo começa outra vez…

Hoje, de novo, a irmã morte veio buscar pela mão, a irmã, na vida de um jovem. Quem sabe se a buscou, por medo...Aquele que todos nós temos.
Da vida e da sua irmã. Que se confundem.
Quem fica com a vida, fica triste, como eu fiquei. Pela vida que a morte leva.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

É ou não racismo?

Os movimentos migratórios são naturais na raça humana como nas aves. Mas são os humanos que se têm tornado a espécie mais invasiva e destruidora à face da terra. E mexido na ordem natural ao ponto de interferirem com a existência das demais espécies.
Este é um grande trabalho de arte, vandalizada pelo município inglês onde Banksy a desenhou. Como nos ensina Camus, “aprendemos com Rei Lear que podemos aprender a ver melhor não porque o nosso cérebro muda, mas porque nós mudamos, colocando-nos as questões essenciais: o que podemos aprender, o que deveria eu saber que não sei, o que me está a falhar?”
O Vandalismo desta obra, mostra o demónio que invade o espírito dos idiotas racistas e, em vez de matar o demónio, criado pela mente humana, com os seus medos habituais, mata-se o mensageiro…
Fingindo que não vemos, não sabemos ou não queremos ver, não nos tira o medo. Só temos alguma possibilidade de esperança, quando tentamos e insistimos em olhar, para ver.

Somos quem experimentamos ser. E se apenas experimentamos ser pequenos e infelizes, assim seremos. Estamos emprestados aqui e quem é grande é quem nos oferece as condições para a existência, o planeta terra e a natureza. Cuidemos dele e das suas espécies. Em especial a humana. O racismo foi criado por ela e apenas ela (a mente humana). E tão ela pode destruir o demónio do racismo, que é o que Banksy expõe cruamente nesta obra d´arte.