segunda-feira, 17 de agosto de 2015

E se?

Cada vida é um livro de histórias com vários personagens e um(a) protagonista. Na jornada de auto descobrimento sobre quem é e o que lhe cabe no tempo que dura a sua história, cada herói tem inúmeros conflitos, dores, escolhas, sofrimentos, ansiedades, alegrias, amores, corações despedaçados, rejeições, ciúmes, invejas, lutas, e experiências, lições e aprendizagens, capítulos que começam e terminam. Por isso gostamos tanto de histórias e narrativas. Por isso gosto tanto de ler e escrever. Porque sou feita deste material.
Começou na mais bela viagem. Escrever a minha história no meu livro.
Agora vou criando outras.
Do nada nasce tudo.

E se cada capítulo começasse com a pergunta e se?
Deixo a poesia que dança comigo dizer tudo...

E se?
E se esta for
a pergunta
mais importante
a abraçar?
e se eu não quiser
mais a minha vida
desperdiçar?
Resta-me a cada dia
de mergulho
no que não sou
perguntar:
e se eu deixar nela
o sol amanhecer?
E se eu nela a janela abrir
e a lua cheia deixar entrar
para a iluminar
e fazer o que em mim existe
de luz e sombra
se amar
a vida não é eterna
mas é louca
eu aqui louca vou ficar
me fundir com a eternidade
e se ?
eu mais louca me tornar
e se ?
no templo da loucura do amor,
do amor
me mergulhar
e se ?
lhe der todos os sentidos
do meu corpo velho
para me abraçar
e se ?
concordar
que nunca mais escrava vou ser
mesmo que embrulhada em papel
de escravidão
ao dinheiro
na talha dourada do seu altar
e se ?
me obrigar
pela liberdade me pintar
do corpo cuidar
o espírito embelezar
os sapatos descalçar
de pés na terra assentes
de mãos seguras
levantadas
ardentes
na dança dos sonhos
me enrolar
pelo tempo que me restar
e se ?
com a minha história
acordar
que a poesia vou deixar entrar
para comigo se aninhar
no meu sono se enroscar
e com novas histórias
a cada dia
me presentear
eu sei
não mais ses
não mais mas
a minha vida
podem atrapalhar
ou destruir
e à loucura desta vida
valha a pena
me entregar
para nela me cumprir

sábado, 15 de agosto de 2015

Anúncio de trabalho como prostituta:

Da série: Tentaram nos enterrar mas não sabiam que éramos sementes.

Alugo um período do tempo da minha vida diária. 
Se não peço valores altos pelo serviço, não é por não saber o valor real do meu trabalho, mas porque esse valor é suficiente para o que preciso.
De pouco preciso.
Preciso do suficiente para a cabeça estar fora da água a respirar
e sorrir a boiar, sabendo que tenho pé e não me vou afundar.
Mas não me vendo. Por preço nenhum.
Aconteceu-me mais uma vez neste novo mundo de trabalho esclavagista de ordenado mínimo, mas sem o mínimo de garantia de respeito pela vida de quem trabalha. De subordinação a autoridades externas que julgam ter legitimidade, para mandar na vida de quem lhes aluga o seu tempo diário de vida, mas se recusa a deixá-los ultrapassar limites.
As mulheres sempre foram seres subordinados e subjugados a quem se julgava autoridade sobre elas. Antes de terem direito a voto, em Portugal no Estado Novo por exemplo ou para com os maridos também.
Voltámos ao Estado Novo só que agora votamos mas de nada serve.
É assim que acontece na violência doméstica. Os escravos recebiam o mesmo tratamento. Seres subordinados e subjugados por gente que se julga autoridade sobre as suas vidas.
E é hoje no mundo do trabalho. Qualquer trabalho em qualquer área, idade, género ou credo.
Subordinados a quem de forma totalitária e unilateralmente se julga dono das nossas vidas.
O governante, o patrão, a empresa de recursos humanos, o chefe/chulo hediondo e fútil que julga ter o pequeno poder de controlar /oprimir/ dominar as pessoas que para si trabalham.
Esse é o objectivo. Ter pessoas vazias de consciência, de emoções, de voz.
E se alguma reclama ainda que seja em voz baixa, pressionam, demitem e não pagam.
Acho que foi Deus (ainda não está provado sem margem para dúvida) que ao criar o mundo, sentado no paraíso a imaginar a sua Eva e o seu Adão, fez um círculo à sua volta para perceber os limites da criação (li isto por aí).
A caixa craniana limitaria o centro nevrálgico onde os neurónios fazem o seu trabalho, a pele limitaria o palco onde a máquina faz funcionar todo o sistema, como a casa do casal se limitaria pelas paredes e por aí fora. O ambiente seria limitado pela atmosfera na esfera que limita a terra.
Como na vida social e do trabalho os limites são parte de todos os sistemas, ou não teria havido revoluções para a evolução do grilhão até ao ordenado mínimo, e, chegar aos dias de hoje onde já se discute, reivindica e aplica-se (no Utrecht-Holanda por exemplo) o rendimento básico garantido como forma de assegurar as condições dignas de vida para qualquer pessoa para que esta possa fazer o que entender com a sua vida no que diz respeito ao trabalho.
O trabalho deverá ser uma escolha, uma paixão, um acto de dar de o melhor de si e não de opressão/domínio ou de sobrevivência. E deverá ter limites claros. Foi isso que nos chegou com os contratos colectivos de trabalho e a legislação laboral moderna alcançada pelas lutas de homens e mulheres que como nós não se deixaram subjugar e escravizar.
Claro que não somos livres hoje e o mundo do trabalho é de novo um mundo de controlo,domínio, opressão e abusos. De subordinação de pessoas, onde pessoas se julgam sem limites ao lidar com outras pessoas.
Só não o é hoje pela força do chicote antes sim pela força do dinheiro.
É o reino divinal do “venha a nós”. Dos patrões que nem falham a missa aos domingos e amam padres. Veja-se o Santo Espírito do Espírito Santo entre a maioria das famílias portuguesas capitalistas que se julgam “donas dos trabalhadores”.
Eu mando, eu posso, e tu se não quiseres obedecer outros mil hão-de aceitar (porque ó Evaristo, desempregados há muitos…). Esta gente arroga-se (como quem toma por garantido) que os trabalhadores são ilimitadamente prostitutas escravas, robotizadas e sem actividade neuronal.
Controladas e emocionalmente vazias. Fúteis, superficiais, passivas, obedientes, consumidores distraídos por valores fúteis e inúteis. Nós as prostitutas deles.
Por azar dos chulos nem todas as putas se vendem. Algumas há que fazem um círculo à sua volta. São elas que escolhem como querem ser comidas.
No meu caso ficam a saber que sexo só com orgasmo e uso do preservativo.
São os limites impostos no meu trabalho para quem pensa em abusar. No dia que pisam a linha limitadora, eu prostituta, rebento o trabalho (blow the job).
E se me apetecer, eu prostituta sem vergonha e digna, chamarei os nomes dos bois abusadores, esses sim com razões para se envergonharem.
Nunca contem comigo para pactuar com o jogo da obediência e do silêncio.
Antes morrer de fome que morrer curvando-me subjugada para receber uma malga de sopa.
Ando muito contente por saber que por cada caso de opressão e abuso, uma ou duas sementes aparecem a denunciar situações, a não calar. Como em todas as situações que nos oprimem e subjugam.
Estes são tempos de solidariedade e de juntar esforços contra a nova escravatura orquestrada para nos silenciar.
Não posso aceitar a subjugação nem a opressão de outrem.
Chegámos aqui ao estado de domínio cuidadosamente programado, mas lentamente vejo mudanças irreversíveis na consciência colectiva.
Já somos muitos a lutar pela não aceitação destas regras.
A minha curta vida não é uma amarra, é uma escolha em nome da liberdade.
A vida é para ser usada como primavera das sementes.
Já despontamos. É minha fé que despontaremos sem limites.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Lua de prata*Artistas

Dedicado a todos os artistas sem excepção mas em especial aos meus amigos.
Aos meus filhos todos eles artistas.
Porque todos são nos dias de hoje luz de prata. 
É preciso ser-se de prata, ter-se luz para seguirmos o caminho das artes.
Somos sementes mesmo que nos tentem enterrar.
A todos de todos os quadrantes desejo muito sucesso, que é mostrarem o seu trabalho e este ser valorizado, ser importado para os corações dos outros e, deixar uma semente.
Luz de prata
uma porta
luz de
prata
um caminho
tudo o que tenho que fazer
é entrar
cada dia de vida
uma semente
luz de prata
é plantada na alma
no caminho
tudo o que tenho que fazer
é caminhar
as sementes plantadas
na minha alma
crescem
altas,
petulantes,
sem vergonha
andam o caminho
da porta
para nela,
com luz de prata
despontar
a imagem mandou-me a minha koala Ana Malafaia com o desafio, sempre o desafio de escrever. Nós somos sementes que despontam um pouco todos os dias.


Chuva

tantos 
são os pingos da chuva 
quanto as contas 
do meu rosário
curvo-me
num alagado sorriso
dou-me num abraço
despido
e com os pingos
da chuva
nas contas
da vida
entre dedos
deslizo
com o meu rosário
e me entrelaço



Medo e coragem

Tantos dias vivo com medo dos meus medos. 

Um dia descubro a coragem de os enfrentar. 

E nesses dias sei qual a medida que ela tem. 

A coragem transforma-se em David contra o medo Golias.

E vence.

Não, para qualquer situação que a vida apresente, o 
importante não é não sentir medo de Golias.
O importante é ser David.
E fazer com que os meus medos comecem a ter medo de mim.

Tenho muitos por sorte ou por alimento, mas agora dedico aos meus amigos especiais e especialmente porque sabem que sou David e estão prontos a me agarrar.
Sobretudo porque eles próprios são verdadeiros David.


domingo, 9 de agosto de 2015

“Houston we have a problem”. É pré-disposição genética?

Em tradução livre: Portugueses estamos ...(preencher com a palavra que melhor servir a conveniência).
Ou será que estamos pré-destinados a ser assim? Nascemos com este defeito congénito e não podemos ser salvos?
Já nascemos com o karma para não resolver problemas?
Entre pratos de conquilhas e camarões, o belo azul e sereno do mar, as românticas rochas, ou os canaviais das praias fluviais, a mousse de chocolate, os gelados Santini, as selfies em bikini, os retratos de grupos de pézinhos dentro das águas geladas do Atlântico, gin´s em taças do tamanho das usadas pelo senhor prior para o baptismo, a bifana e a mini, por esse Portugal fora (acabou-se o dinheiro para as férias na Dominicana), direi que todos merecemos o descanso das agruras, e, esquecer temporariamente que quando acabarem os banhos e os gins, se regressa sem apelo nem agravo à selva.
A selva das escolhas.
Os desempregados- os oficiais e os que não contam nem servem para nada- os emigrantes em férias, os contratados precários, os que estão inseridos em formações profissionais da treta, os desalojados das suas casas, e um largo etc de gente que não sabe o que fazer da sua vida “livre” sem dinheiro ou ocupação mas com dívidas e sobrevivência para lhes ocupar os pensamentos irão a votos depois dos banhos nas taças de gin.
Pelo que vou lendo, cheguei a um resumo e à bandeira vermelha deste texto: o PS desistiu de ganhar e a coligação quer mudar (eu mudaria para mudem-se).
Leio mais sobre os putativos a Belém que a São Bento. Leio também sobre erros crassos, mentiras, desinformação.
Ao nível de evolução de uma colónia de hienas. Ainda por cima como elas rimo-nos muito...De quê?
Curioso como tudo me leva de volta ao gin em taça baptismal na Igreja. Beber para esquecer…Os génios suicidam-se e eu confesso, como disse algum poeta também não estou nada bem, ao pensar no que por aí vem.
E sem sequer ser um génio, pressupondo que nenhuma invasão extra terrestre irá acontecer, o Messias regressar para nos salvar, ou o Presidente da Islândia pedir a nacionalidade portuguesa e candidatar-se às legislativas e presidenciais e de uma assentada trazer os parlamentares islandeses, parece-me que estamos como as vítimas de abusos e maus tratos: nas mãos do agressor selvagem e predador. Somos uns pães sem sal. Uns incapazes.
Ou talvez não. Pode ser que a massa que se encontra hoje nos retratos bucólicos, volte revigorada e vote em toda a gente menos nos partidos do eixo do mal que nos trouxeram esta hecatombe.
Eu avisei, não estou nada bem...sou afligida por pensamentos positivos budistas de tempos a tempos.
No meio dos retratos da pia baptismal cheia de gin vi um retrato com os sempre inspiradores ensinamentos de Noam Chomsky que resumo por palavras minhas:
-Quando se tem dívidas e a elas se está amarrado por vários anos da nossa vida: dívidas para estudos, para a casa, para o seguro, para o carro, para respirar, só se pode pensar em comer uns petiscos e beber um gin.
Enjaulados, aprisionados e armadilhados num esquema de dívidas não há tempo para sequer pensar. E menos ainda em mudar.
Ficamos disciplinados e condicionados a pensar que esta é a única vida que podemos ter.
Como nos querem e programaram com o objectivo de controlar.
Mudar o sistema ficará sempre para depois. Para a próxima vida.
E é esta armadilha que me assusta.
Entre a pílula azul e a pílula vermelha, tomar a pílula vermelha é uma escolha que só se faz se o pensamento não estiver condicionado nem encurralado. Ou controlado.
Precisamos urgentemente de mudar. Mudá-los de lugar a todos eles que nos encurralam.
Dar lugar a gente nova, de cultura, pensamento e coragem.
Quando a nave Appolo 13 pediu ajuda, os seus astronautas precisaram de uma enorme coragem, determinação e arrojo para enfrentar o problema. O bom senso, a união, o pensamento no todo e em conjunto foram essenciais para aterrarem em segurança de novo no nosso planeta.
Assim estamos nós. A nave está com um grave problema. Seremos capazes de ser como os astronautas em missão de salvamento?
Ou vamos voltar ao dia antes dos banhos? O mesmo de sempre? Com os crápulas do costume no poder?
Lembrei-me agora com o fado que este povo tem, depois das romarias a Fátima e de acreditar em milagres da Igreja que este povo tanto gosta, o futebol está a regressar para nos fazer esquecer as agruras e manter a disciplina e o controlo de um povo.
Vou ali beber uma água tónica, já que infelizmente não gosto de gin, e, fazer figas para que os banhos gelados façam acordar.
Ou esperar um milagre.

Eu sou Cocas

Próxima encarnação

Dizem as teorias da Nova Era (o Passos deve andar a falar com Jesus), que escolhemos quem queremos ser. Dizem as teorias que as vitimas não são vitimas. Que todos escolhemos quem queremos ser, com quem nos queremos relacionar, quem queremos para pais e irmãos e restante família. Que antecipadamente escolhemos o plano e fizemos uma apresentação em power point: quero ser pobre, ter uma doença rara, ter um pai que me bate, um marido infiel e bêbado, que me dá cacetadas quando o Benfica perde e uma mãe que me rejeita e coloca num cesto à porta da Igreja…
Por isso nunca se deve sofrer pelas vitimas, dizem...
Escolhemos quem queremos ser e como queremos viver. Como forma de aprender lições e subir nos degraus da escada para o regresso à casa de onde somos originários.   
A vida, dizem, é a escola. E vamos fazendo exames e só depois sabemos se aprendemos as lições. O espaço para o livre arbítrio? São as escolhas que fazemos. 
Mas vamos sempre dar ao plano apresentado em  power point... Dizem as teorias.

Aqui a porca torce o caracol do rabo: 
-Quer isto dizer que escolhi viver neste tempo de crise? De ser qualificada mas também a melhor amiga do desemprego junto de mais meio milhão de tugas? Quer dizer que escolhi por companhia a época dos predadores  que me comem e nem me deixam escolher o “molho com que vou ser comida” (como disse Galeano)?
Que escolhi a mesma época destes políticos da treta, desta falta de cultura nas gentes, de saldos na educação?
Quer dizer que escolhi abrir a caixa de Pandora que é a minha preciosa vida no meio de tanta mediocridade? 
De gente que vive de aparências, de se mostrar o que nem é? Ou pior, de nem saber o que se é? E tratar de forma arrogante e superior os irmãos de raça? 
Quer dizer que escolhi ser sobrevivente neste meio pequeno que me envergonha como ser humano?
Pois bem, está decidido, já fiz o plano para a próxima encarnação e apresentei-o a uma amiga que teve a delicadeza e a educação de assistir, já que escolheu ter-me por amiga nesta encarnação: vou ser condenssa, rica, linda como a Catherine Hepburn, o corpo da Marylin Monroe e cantar como a Nina Simone. 
Para a próxima, amigos e familiares não quero ter trabalho nenhum! Claro que as condenssas trabalham pro-bono a favor dos pobrezinhos. Prometo ser boazinha mas ver-me livre destes possidónios que me atrapalham. 

Aprendi todas as lições, passei todos os exames e já estou no degrau a bater à porta e a pedir guarida ao santo que a abrir. Estou fartinha desta encarnação com o pano do pó à ilharga!
Tenho dito!