terça-feira, 20 de maio de 2014

Aconteceu.



A vida é um intervalo tão curto que a chave do seu propósito está em vestirmos os sonhos nossos.




Aconteceu.
Não pedimos o amor. Ele escolheu-nos. Tu e eu.
Vestiu-nos de roupas indomáveis e rebeldes iguais a ele.
Parámos de nos procurar. Esbarrámos no coração do outro. De frente.
Nesse segundo, desprotegidos, aconteceu. Os relógios suspenderam a cadência para nos vermos. Numa vénia o arco da flecha cumpriu a missão. Fez-nos entrar por ruelas que não existiam. Outras estavam esquecidas. A vida aconteceu bela, poderosa, envolvente, perfeita, curta. Para sempre infinita.
Trocámos as veias para circularmos sem obstáculos. Toma a minha chave, disse-te eu. Perdê-la-ei dentro de mim, respondeste tu.
Não conseguiremos nunca separar dois mundos que se fizeram um. O destino ludibriou a vida não lhe dando tempo para ter mais tempo. Esgotámos o nosso tempo quando ficaste sem tempo de vida. Já nada mais poderá crescer a não ser a célula que se multiplica para matar.
Não temos para onde ir se o outro não está. Infinitamente perdidos, entre o sal das lágrimas e o doce embalar do abraço que unia os corações.
Nunca mais nos vamos falar mas farás sempre parte do meu pequeno mundo. Vou adormecer e não mais no teu colo acordar. Foste a luz que guiou o escuro do meu coração. Amanheço mas a claridade ainda não se faz em mim.
A dor esmaga. Damos. Recebemos. Perdemos. Tudo. Se deixou de acontecer já não importa. Estamos despidos.
Já não importa se a culpa és tu. Ou se fui eu.
Aconteceu.




Micro conto- A minha 1ª experiência. Dedicado a quem perdeu amigos,familiares,amores para o cancro. Como eu. Foi a pensar neles que perdi,que me atrevi a fazer uma simbiose.

Desculpem “Matei o ministro da Saúde” e da Educação e da Justiça



Na espuma dos nossos dias,


“Nunca me senti tão profundo e ao mesmo tempo tão alheio de mim e tão presente no mundo” Albert Camus

Enquanto um número infinito de factos terríveis acontecem, nós observamos o jogo nas nossas consolas.
Enquanto estamos sentados nos sofás a ver a troca de cadeiras e promessas vazias da campanha eleitoral.
Enquanto celebramos as vitórias do clube do coração e que nos traz sorrisos.
Enquanto fazemos contas para chegar a meio do mês com pão na mesa e ficamos menos saudáveis por comermos mal.
Enquanto não sabemos se podemos tirar 1 semana de prazeres simples na casa de praia da tia, para nos alienarmos do que nos rasga a alma.
Enquanto…
As guerras acontecem com o intuito de destruir para que posteriormente algumas corporações se instalem a reconstruir e a fazer lucro.
As eleições acontecem para que uma dúzia beneficie e troque favores, limpando-se mutuamente como bons irmãos ligados pelo crime. As leis que coloquem o cidadão no centro das decisões não se fazem, porque somos apenas poeira.
A globalização está prestes a acabar como a conhecemos, porque vai ficar tudo tão caro, nós ficaremos sem poder de compra e deixará de ser rentável termos bananas da Venezuela a €0,99 contra as da Madeira a €1,99.
Que fizemos para ter isto? Primeiro fomos escravos dos vampiros que nos sugaram a alma. Agora mudaram as roupagens aos escravos e os vampiros sugam-nos o sangue… da alma.
Vejo este jogo brutal!

Coitadinhos que somos. Esta frase tão portuguesa e que serve para tudo…
Em Espanha uma mulher na política que se governava bem, foi assassinada por uma cidadã para quem a vida se tornou ingovernável. Sem dinheiro, sem apoio, sem trabalho, sem luz. A única luz vinha de um TGV na sua direcção. E esta mulher-cidadã, com contas, com filhos, com casa, com vida para se cumprir, decidiu matar quem representa que lhe matou a vida. E iniciaram uma campanha publicitária “desculpem, mas tive de matar o ministro”.

Enquanto isto, nós coitados acompanhamos o jogo nas nossas consolas.
Enquanto isto tudo acontece, só me apetece ausentar da minha consciência e enquanto no mundo, escrever.
Cartas de amor para equilibrar o sofrimento. Rir da inércia colectiva. Chorar pelo fardo que não posso carregar.
Coloco-me a questão: será que se oferecêssemos mais rede uns aos outros mudaríamos alguma coisa?...
Escrevo com pena de nós. Coitadinhos que somos como diria o Kalimero.
Mas com uma certeza, desculpem, quando sair vai ser limpinho, desisti de reincarnar.


segunda-feira, 19 de maio de 2014

Tirar a poeira dos sonhos



Psst disse-me a lua, anda comigo. Vou-te pegar no meu colo para juntas tirarmos a poeira dos sonhos. Para onde vamos quis saber sôfrega? Vamos onde a estrada não acaba. De mãos dadas, percorrer os caminhos que desafiam os nossos desejos, as nossas ansiedades, a nossa sede e a nossa fome. Fome e sede de sonhos onde o nada vale por tudo. Desejo e ânsia de sonhos que não acabam. Feitos de tudo para que nunca acabem em nada. Com a boca vou-te contar segredos, pousando ao ouvido da tua. Vou juntar-me ao teu peito no lugar onde adormecemos as nossas almas puras, nuas e fazer-te entender as cores dos sonhos. Eles vão dentro das malas que guardam as viagens, num arco-íris de prazeres.  
Já chegou a noite e tu com ela para me desassossegares, mas sem ti seria meio inteira. E num passo leve e sensual, a flecha certeira faz alquimia na minha imaginação. Vou contigo sim, sentar-me no teu ventre e fazer o que me resta, tirar a poeira dos sonhos. Ou guardá-los na mala para a próxima viagem, num dos meus sonhos. Voei para um lugar sem gravidade para deixar o peso do que não me faz falta. Bem vistas as coisas lua, nem preciso de dormir para sonhar. Apenas preciso de espaço para dar lugar aos novos sonhos.