sábado, 18 de outubro de 2014

Sexo e vida, leis e políticos

" É uma infelicidade da época que os doidos guiem os cegos” Shakespeare

Cuidado: atentem em mais uma fraude que faz com que a evolução da espécie esteja parada...

Querem-nos pobretes, alegretes (com a casa dos segredos e outros quejandos), adormecidos, obedientes, silenciados, culpados, rastejantes, pedintes e sem força anímica. De preferência e para culminar: sem sexo. Que não seja em idade de procriação.

Eu, mulher, entrada nos 50, sem produzir óvulos, mas inteira no conceito de prazer, aconselho, os juízes fechados em casulos, infelizes, escondidos nas togas, citiados e sem sexo, num mundo à parte do mundo; aos políticos cinzentos, infelizes, que nem sabem onde está o sexo:

- Um workshop original com strip-tease não apenas de contas mas daqueles inspiradores de prazer, onde não se usam togas, nem boxers, nem fio dental, com dança do varão, uma mesa, velas, uma boa cama redonda e de água, com “oficinas” práticas de sexo.

Para vos clarificar as ideias. Sobre sexo depois dos 50 em mulheres, sobre direitos, cidadania e o dever de desobediência. Para vocês os doidos referidos por Shakespeare.

A navegação vai entrando cada dia mais em águas obscuras, em submarinos sem periscópio para nos deixar no fundo do oceano, por isso convém não obedecer às ordens dos comandantes doidos.

Não se calem. Desarrumem-lhes as ordens. Destapem as burkas que vos tapam o raciocínio. Não os oiçam, em nada. E façam sexo, antes, depois e para além dos 50. Por prazer. Ou como diria uma amiga: “fazer o amorzinho”.

Porque é vital para a vida e se um juíz(a) não sabe disto, lamento, por ela(e).
Desplagiem quem nos quer a plagiar “ideias” que à custa de serem repetidas, se venham a tornar verdades.
O regresso ao obscurantismo está a caminho? Pois…E com esta era de doidos a dominarem cegos, os direitos são lesados e até os prazeres, convenientemente, nos querem tirar.
Esta gente doida é o verdadeiro vírus, que mata e atrasa a evolução. Porque foram infectados, os cegos, andam encandeados. 
Cansam-me a beleza.

Porque tem muita importância para qualquer ser humano, em qualquer idade, vou ali fazer o amorzinho, pelo amorzinho ao sexo, com muito prazer e, já volto para continuar a vida.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Vida e medo- Peça de teatro

Peça de teatro. Um diálogo entre dois personagens: O medo e a vida. Num dia solarengo, uma casa pequena, uma pequena varanda, uns degraus. Medo e vida vinham a atravessar a rua dirigindo-se a casa encontrando-se lado a lado. Fingiam não se ver.

Confundiam o dia e a noite. Sobrepunham-se sem limites. Eram de ambos e pertenciam-se. Mas recusavam sentar-se a beber uma bebida fresca e olharem-se nos olhos. Na casa que era de ambos.
Cruzavam-se com demasiada frequência, desde tempos imemoriais, mas o medo do confronto fazia-os olharem-se de soslaio, baixar a cabeça e atravessar com o olhar posto no chão. Fingindo não se verem. Durante uma vida inteira.

Naquele dia a vida, sentindo-se vulnerável mas determinada a não lhe dar mais poder, reuniu as suas forças, indo buscar energia ao seu amigo sol; sem medo do medo dirigiu-se-lhe convidando-o:

-senta-te comigo medo, vou-te dizer o que penso de ti. Vou-te dizer porque me assustas, porque me tens assustado e me deixaste marcas. Quero dizer-te que me vou perder de ti… (quase sufocava nas próprias palavras que a assustavam. O medo tinha uma força que nem ele próprio sabia, julgava a vida…).

Sentado ao seu lado, o medo, com o semblante arrogante, carregado de desprezo aproximou-se quase se colando ao ouvido da vida. Conhecia a sua força. Essa sua consciência fazia-o desafiar a vida em permanência. Poucos o ganhavam. Poucos o superavam.

“O que será que tu vida medrosa me queres dizer?” Soprando-lhe ao ouvido, enquanto se sentava observando o dia luminoso, com as cores garridas que a natureza oferecia para que a vida se inspirasse a chamá-lo.
“Que corajosa. Tão habituada estava a ser dominada por ele… No fundo a vida não sabia nada de nada…”

-Ouve-me bem medo, começou a vida ganhando coragem, inspirada pela voz que ouvia vinda do coração: a criatividade e paixão são os únicos estados naturais que quero conhecer na vida que me acontece. Farei para que aconteçam. Que sejam também o meu epitáfio quando a minha irmã morte me vier buscar. Do passado todos trazemos pérolas: as feridas cicatrizadas que foram cobertas com amor. São a referência que hoje devem dar lugar à criação de novas asas. São as únicas asas que quero que me acorrentem. Tudo o resto são hobbys, que levam ao cansaço e ao aborrecimento, que por sua vez levam à morte…da criatividade e da paixão. À morte da minha vida.

-Mas para que queres tudo isso? Qual a razão de criares? Irás a algum lado com essa imaginação? A criar? Isso é só poesia…ria-se o medo com escárnio

- entende-me medo, quando nada temos, mais criativos nos fazemos. O nada faz nascer a paixão por criar qualquer coisa. Mesmo criando um erro. Já não me assusta errar. Torna-me mais humana. Mais igual a todos. Nesse estádio sinto-me a única parte de um todo imenso. Ofereço as asas que a minha criatividade me exige. As asas com que nascemos todos. Que por tua culpa e pela repressão não abrimos.
Quando uma criança começa a mentir aos pais: nasceu um contador de estórias. Um bom pai anota e incentiva. Ensina as diferenças entre imaginação e realidade mas não mata a criatividade. Nem deixa que um muro comece a nascer. Entre a criatividade e o mundo assustador que cá fora a castra. Isso és tu que fazes…
Quando uma criança começa a pintar as paredes da sala e do quarto, um bom pai coloca telas e papel pardo pela casa e oferece canetas…
Todos sabemos o bem que sabe estar à beira mar a construir figuras na areia. As crianças não querem saber se o mar as leva na sua espuma. Um bom pai incentiva e colabora. Para que o medo de errar e começar de novo seja limpo pelo sal do mar. Mas tu chegas e destróis esses sonhos…
As crianças atiram-se sem medo. Não sabem que não sabem gatinhar, andar, correr. Fazem-no por intuição. Por instinto. Isso sou eu, a vida. Depois vens tu…interferir…
Tu medo, com a tua arrogância matas a criatividade, porque questionas a razão de se querer muito fazer uma coisa, e incentivas o medo de errar. Não queres que se deitem abaixo os muros onde nos refugiamos. Por ti medo…

-Tudo isso é muito bonito, mas o meu papel é esse. Vou continuar a estar atento à tua imaginação e fazer o que tenho de fazer: incutir-te medo. No fundo sou teu aliado ao bloquear-te: desafio-te a saíres desse muro. Devias agradecer-me…

-A partir de hoje, vou ser o melhor acompanhante da minha imaginação. Vou seguir o fluxo da inspiração. Aceito o desafio.
Hoje vou inventar estórias como se fossem verdadeiras. Com personagens como eu, ou com seres que nunca vi e nem sei se existem. Como uma criança com amigos imaginários. E oferecê-las para tocar outras imaginações. E voarmos juntas.
Hoje vou tocar piano como se fosse uma criança a aprender. Como uma criança, não sei tocar, mas na minha imaginação terei uma sonata de Mozart. Hoje dançarei mesmo não tendo ritmo. Como uma criança, na minha imaginação, sou capaz de desempenhar de olhos fechados a melhor coreografia de Isadora Duncan. Como uma criança, hoje vou pintar todas as folhas que me apetecer mesmo que não saiba fazer mais que riscos abstractos. Na minha imaginação terei trazido Velásquez à vida.
Eu vida, vou dar vida à criatividade que nasce da junção entre a intuição e o racional. Num lugar desconhecido. Vinda do nada e que se transforma.

-Porquê? Para quê? Quis saber desdenhoso o medo, já com algum medo de perder protagonismo.

-Porque neste mundo profundamente doente, feito por doentes terminais de uma epidemia desconhecida, talvez consigamos a cura através da criatividade. Não a matando. Deixando que as nossas crianças sigam o fluxo da capacidade de criação com que nascem. Na educação em casa e no ensino nas escolas.
A criatividade é ditada pelos padrões culturais de cada era. Talvez porque a matámos aos nossos pais, aos nossos filhos, esta era, está entregue a “artistas” psicopatas sem coração. Sem emoções. Sem sentimentos. Sem criatividade. Sem paixões. A quem castraram a criatividade. A quem deixaram que o muro da revolta e da maldade fosse crescendo à sua volta. Porque tu medo, te interpuseste. És o meu maior obstáculo! Sim, és!

-Eu controlo! Basta olhar para os jovens doentes à nossa volta, o que fazem de absurdo para se integrarem, aos políticos cuja única ambição e riqueza é querer poder e dinheiro, aos gangs violentos, à exploração dos recursos da natureza como se fossem infinitos e como se ela precisasse de vocês; aos seres que disparam e matam indiscriminadamente, aos que em nome de um Deus qualquer, deixaram que lhes escapasse o valor da vida…às tragédias que mulheres e crianças sofrem…e tantas outras absurdas doenças humanas…
Sabes a estória do Pedro e do Lobo? O medo levantou-se fazendo menção de se ir embora. Estava farto daquela vida que o começava a assustar…sabes a estória, continuou? Tanto medo por algo que não acontece, até que acontece…Ou então, medo para dominar e ter-vos debaixo de um controlo apertado tão simplesmente. É importante incutir-vos medo. Permanentemente. Vou continuar aí!

Soltou uma enorme gargalhada que deixou um profundo sabor amargo e triste na vida…de desamparo…

Para a vida a decisão estava tomada, com a convicção que só as crianças têm perante obstáculos: enfrentam-nos sem medo. Nem imaginam que a mão dos pais as está a amparar. A vida era agora uma nova criança. Determinada a ser finalmente quem tinha de ser. Alguma mão a iria proteger. A mão da confiança em si mesma.

-Vou apelar a que se rompa o ciclo afirmou a vida! A destruir os muros. A escravidão que nos deixa prostrados e rendidos a ti. Fazendo qualquer coisa criativa. A minha vida vale mais do que o teu domínio. Devemos começar já hoje a abraçar a criatividade. Vou começar já hoje a fazer qualquer coisa para criar. Criar para viver. Amanhã vou acordar a sentir que essa é razão de existir: vivemos para criar. No dever de nos encontrarmos, a criatividade ganhou todos os direitos da minha vida. Sem mais perguntar: “para que faço isto?”. Não vou voltar mais ao teu caminho medo. Não te tenho mais medo.

-Então e se não te der dinheiro? Nem prémios? Nem sucesso, nem exposição? Nem fama? Ou alimento? Ou poder? De que te serve a criatividade? Qual a razão para o fazeres? És ridícula, imatura, tontinha!!

-Não me demoves. Não tenho nada a perder. Aliás nunca tive, desde que tenho vida. Mas tive medo. Em quantidade suficiente. Chegaste ao fim na minha.
Faço-o para a minha evolução. Por ela tenho a obrigação, o dever e o direito de criar. E tu medo, já não preciso de ti nem como aliado. Menos ainda como meu obstáculo. Cresci. Tornei-me de novo uma criança.
Vai, segue a tua estrada. Desejo que tenhas tu também uma re-evolução criativa…sem medo de ti próprio…

Por fim, olhavam-se de frente…sem medo. Cada um cumpria a sua missão.
Vida e medo confrontavam-se, com a capacidade que vem unicamente da força criativa.
Finalmente, cheia de vida, levantava-se para mergulhar sem medo na água transparente da sua vida.


Fim

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Porquê a criatividade?!

Busco a excelência da Humanidade ?! Do Homem?! A minha?!
Porque crio? 
Porque é um objectivo elevado?! Porque é o objectivo da Humanidade!?
Muito mais alto que um Homem só. 
Por isso todos somos necessários. E todos estamos ligados. 
Como num livro, no final as estórias interpenetram-se, completam-se e conjugam-se. Escrevem-se no singular. Concluem-se no plural. 
Imprimem-se em nós.
Criamos como expressão para romper as defesas as defesas que nos impedem de nos auto-conhecermos?!
Crio para sentir. E saber que sou livre. 
Ou sinto para conceber?! Num acto de liberdade?!
Na busca antiga pela dignidade do Homem, o próximo acto de criatividade pode trazer a resposta...
Continuo a busca. Continuemos a busca.
De cabeça para baixo. De costas. Olhando em frente o que me observa. Ou às avessas.
Em perfeita similitude com um relacionamento,
Assumo um compromisso com a paixão
mantenho algum decoro e desapego com o conteúdo, para que a forma se molde em liberdade,
essa mesma liberdade que deixo com o objecto que trago à luz e me cria nova
que me faz ser a beneficiária de um orgasmo
de sentimentos e emoções surpreendentes que me possuem e completam,
através dos conflitos e das ligações que dentro me despenteiam, irrompem e tomam lugar
quando se disputam.


Um dia, a minha busca ser-lhe-á entregue a ela. E a ele. Ao meu sangue.
Continuá-la-ão em seu nome.
Notas individuais que se transformam numa canção. Com vozes em uníssono. De busca.
Como forma duma impressão, 
numa expressão pela excelência.
De uma nova dignidade. 
A da Humanidade.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

"Não os deixemos dormir, se não nos deixam sonhar"


John Adams, segundo presidente americano, "Existem duas maneiras de escravizar uma Nação. Uma é pela espada, outra através da dívida”. Num discurso em 1826.

Tenho por intenção morrer imperfeita! Ainda não irei nesta vida quebrar o ciclo das reencarnações. Na próxima vida, talvez me refugie num mosteiro, em um país longínquo, e, passarei os meus dias a jejuar, a meditar. Para atingir um nirvana que me estará reservado.
Quando este canto deixar, num nenúfar cor de outono vou-me ficar, a pensar em que pássaro me tornar. Mas para já nem digo adeus, nem me quedarei em sossego.
Daqui deste socalco onde me encontro, sem procurar a perfeição, apenas aproveitando a vida quase perfeita que a serra me oferece, pergunto-me: porque e como nos tornámos tão perigosos, se a ideia de Humanidade nasceu há tão poucos séculos?
E, antes mesmo de florir, ou antes de se cimentar no solo rico e adubado com a filosofia, o humanismo, o iluminismo, o renascimento?
Somos distraídos com a dívida (ler as palavras de J.Adams), com terroristas vários, do ISIS ao Ébola, (é mais provável morrer atropelada por um tuga inconsciente- e dos que votam-), quando os verdadeiramente perigosos vestem Armani e não sabem o que é isso de humanidade: esses são meros cientistas- com esta corja de humanos- que não serve para nada, a não ser como objecto de experimentação!
Querem que me sacrifique? Que os siga? Que lhes obedeça? Que pague dívidas absurdas? Que continue a ser uma consumidora cega? Que nem ouça? E muito menos que fale?
Neste país, ou antes, neste mundo perigoso e sequestrado pelos interesses económicos, onde a manipulação é a ordem de ataque, vou obedecer?
Em nome de quê? Por quem? Por quem já perdeu a legitimidade (ou nunca a teve) para me governar ou governar em meu nome, ou tem poder sobre o que quer que seja?
De erros Cra(t)ssos em erros de programação, o país encontra-se Citiado, o mundo em perigosa queda livre e eu, encontro-me envergonhada com a manada que comigo se pastoreia. A erva verde está deste lado do pasto, de quem se rebelar. A outra margem está poluída como o Ganges, onde se lavam almas numa cadeia invisível, mas que ainda nos tentam convencer da sua bondade.
Na irracionalidade dos nossos dias querem-nos ricos em ignorância e medo. Presos por dívidas. Ou mortos às carradas (sobretudo aos pretos- esses não dão jeito nenhum estarem vivos- e a consumir os recursos de um tão absurdamente rico continente) já que não nos suicidamos colectivamente.
Para ficarem apenas os que têm capacidade para pagar e consumir.
Prometo não me submeter, não me render, não arranjar desculpas para não fazer o que estiver ao meu alcance de não desperdiçar a capacidade do poder das palavras. Descalçar-me-ei até que a terra seja o único apoio da minha nudez. Para que esses outros bem vestidos não vivam descansados.
Como um analfabeto, depois de rever o Carteiro de Pablo Neruda, apetece-me fazer metáforas:
-Vivo num enorme bar aberto, de alterne...
As alternadeiras sucedem-se sem escrúpulos.
Até se zangam de vez em quando por causa dos clientes...
mas, também levantam os aventais para se protegerem.
O que se passa dentro do alterne fica dentro do alterne.
Se sou o que penso, como dizem alguns gurus dos retiros daqueles que querem pôr fim ao ciclo de reencarnações, informo que tenho pensamentos escondidos no meu inconsciente que me dizem que só me resta soltar as correntes e escapar.

E pedir a quem é feliz e forte para ajudar os que menos podem, para quebrar este ciclo de manipulações e sequestros de quem apenas quer a paz de uma vida tranquila, até chegar o fim natural desta sua reencarnação.

sábado, 4 de outubro de 2014

Vida e morte

Como num pacto de sangue,
para a eternidade,
vida e morte, 
irmãs siamesas
dão as mãos
em simbiose perfeita.

Um dia,
num dia único,
como tantos outros dias únicos,
a luz da irmã vida
extingue-se.

Nova luz se reacende,
A da irmã morte,
a iluminar um novo caminho.

O espírito eterno
supera-se, livre,
por fim.
Liberto do peso da matéria,
não é mais cego,
porque vê...
com clareza.

Já não mais tem medo,
porque se torna
apenas essência.
Memória.
Nos outros.

A irmã vida,
breve e ilusória,
transforma-se,
diante do trilho que pisamos,
a que chamamos, nosso caminho.

A imagem,
dela, vida,
a sua irmã morte,
vive ao lado, segura de si,
porque certa e infalível.

A lembrança de quem parte
Ah! essa terrível memória
que teima em se agarrar...
fica exilada,
na corrente que a amarra ao coração
de quem é deixado
com a irmã vida.

Até ao dia em que transformados em pó,
de estrelas,
em pequenos grão reluzentes,
a irmã morte,
reacende a sua luz
para a irmã vida,
e por fim,
se reencontram…

e como num pacto de sangue
para a eternidade,
tudo começa outra vez…

Hoje, de novo, a irmã morte veio buscar pela mão, a irmã, na vida de um jovem. Quem sabe se a buscou, por medo...Aquele que todos nós temos.
Da vida e da sua irmã. Que se confundem.
Quem fica com a vida, fica triste, como eu fiquei. Pela vida que a morte leva.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

É ou não racismo?

Os movimentos migratórios são naturais na raça humana como nas aves. Mas são os humanos que se têm tornado a espécie mais invasiva e destruidora à face da terra. E mexido na ordem natural ao ponto de interferirem com a existência das demais espécies.
Este é um grande trabalho de arte, vandalizada pelo município inglês onde Banksy a desenhou. Como nos ensina Camus, “aprendemos com Rei Lear que podemos aprender a ver melhor não porque o nosso cérebro muda, mas porque nós mudamos, colocando-nos as questões essenciais: o que podemos aprender, o que deveria eu saber que não sei, o que me está a falhar?”
O Vandalismo desta obra, mostra o demónio que invade o espírito dos idiotas racistas e, em vez de matar o demónio, criado pela mente humana, com os seus medos habituais, mata-se o mensageiro…
Fingindo que não vemos, não sabemos ou não queremos ver, não nos tira o medo. Só temos alguma possibilidade de esperança, quando tentamos e insistimos em olhar, para ver.

Somos quem experimentamos ser. E se apenas experimentamos ser pequenos e infelizes, assim seremos. Estamos emprestados aqui e quem é grande é quem nos oferece as condições para a existência, o planeta terra e a natureza. Cuidemos dele e das suas espécies. Em especial a humana. O racismo foi criado por ela e apenas ela (a mente humana). E tão ela pode destruir o demónio do racismo, que é o que Banksy expõe cruamente nesta obra d´arte.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

"O conhecimento que não nos leva para além de nós mesmos é bem pior que a ignorância" ditado sufi

Mini conto, 

Era uma vez…

Um menino de uma tribo.

Ngozi entre muitos irmãos, das várias mulheres do seu pai, escolheu Mara filha da terceira mulher do seu pai, para com ela dividir o seu pequeno mundo.
Nesse mundo Ngozi tinha construído um círculo à sua volta. Lá dentro apenas entrava Mara a sua irmã. E alguns amigos imaginários. Parecia-se com todos. Nada os diferenciava. Pensavam e falavam da mesma maneira. Tinha tomado a decisão de não se confundir. Via-se reflectido naqueles seus amigos porque todos eram iguais.
Cada dia que se aproximava da prova de valentia e virilidade construía um muro mais alto. Não queria, não queria…«Ngozi, ( dizia-lhe um dos seus amigos), ao elevares o teu muro, cresces mais depressa. Deixa-te ficar apenas no teu círculo. Estás protegido por nós»
Ngozi isolava-se e cada dia estava mais taciturno. Mara era a única alegria da sua vida. Era uma menina radiosa, vibrante, cheia de vida, linda como o primeiro raio de sol que o despertava todas as manhãs, na imensa savana tão sua familiar.
-«Ngozi anda, vamos fugir!» Ngozi assustou-se. Fugir? Aquela menina não era daquela sua tribo…como podia pensar em fugir? «estás louca Mara? Então e as minhas obrigações? E as tuas?»
Rindo-se sem fim, Mara agarrou a mão do seu irmãozinho e puxou-o: «para já vamos fugir da aldeia. Os baobab estão cheios de frutos. Anda…»
De barriga cheia, deitados debaixo da árvore mais larga que conheciam, sagrada e bela, pensavam nas suas respectivas sortes…
«Mara a ti cabe-te ser escolhida e comprada por algum homem da tribo e viver debaixo das suas regras e obrigações, que inclui seres tratada como um pilão de amassar o milho. Uma vaca é tratada com maior respeito», dizia infeliz Ngozi... «Mas eu vou-te proteger sempre e se algum homem te tentar fazer mal, eu mato-o com a minha lança»!
Hihihihi ria-se Mara contente…« meu irmãozinho, tu? Não és capaz de matar ninguém, mas sei que me queres bem e que me vais sempre proteger. Prepara-te antes para a tua prova, tu sim tens um leão maior do que o meu para enfrentar e vencer. Estou preocupada por ti. Ao contrário do que te dizem os teus amigos, esses imaginários, tu devias sair, brincar com outros rapazes e preparar-te para a vida dura que vais ter : caçar, cruzar fronteiras, cuidar de várias mulheres... És tão frágil Ngozi, tão fechado…. Primeiro vais ter de matar um leão, com a tua lança, para provares a tua virilidade e isso parece-me tão improvável meu irmão… que vai ser de ti?...»
Se algum dia pudermos, fugimos, pensou Ngozi sem nada dizer. Tinha que pensar num plano…
Calaram-se e ficaram a pensar no destino que lhes cabia em sorte.
Ngozi adormeceu. Naquele momento não tinha medo, estava ali com Mara, fora dos limites da aldeia e nada de mal lhes podia acontecer. Os pais estavam nas suas rotinas diárias e eles pouco contavam para a vida da tribo.
Mara pegou na flecha do irmão e aventurou-se. Queria tanto quanto o irmão libertar-se daquele mundo de regras, obediências e obrigações. Por Ngozi e por si tinha de pensar num plano…
Caminhava sem olhar por onde ia. De repente estacou com um barulho quase imperceptível a ouvidos de quem não convivesse com os segredos da savana.
Voltou-se em direcção ao barulho, que vinha do sítio onde tinha deixado Ngozi adormecido. Procurando ser silenciosa, o que bem sabia com os seus 12 anos de treino nas brincadeiras, aproximava-se e o que viu deixou-a gelada.
Um leão, a poucos metros olhava para Ngozi parado. Preparando o salto.
Em poucos segundos, tantos quanto demora um pensamento a transformar-se em acção de sobrevivência, Mara agarrou a flecha e colocou-se em posição de disparar.
Ngozi tinha-lhe ensinado a arte para a qual se preparava há 14 anos. A sua prova de virilidade, de coragem e de força. Não podia dar tempo a que o leão se apercebesse dela.
Se hesitasse Ngozi morria e ela também. Àquela distância não costumava falhar nas árvores. Não podia falhar agora, pensou num último segundo.
Como um verdadeiro guerreiro, Mara puxou a flecha e disparou.
O leão deu um salto com a surpresa do embate e caiu ao lado de Ngozi. Mara a tremer de medo, correu a puxar o seu irmãozinho que estava acordado a chorar, com as mãos a cobrirem-lhe o rosto:
-Ngozi estás bem?
-Sim Mara, disse Ngozi por entre os soluços, que aconteceu?
Mara contou-lhe e abraçaram-se a chorar.
-Anda vamos voltar para a aldeia, contar que mataste um leão. Está aqui a prova. Vamos antes que o leão ferido se atire sobre nós…
-Mara minha irmãzinha, não vês que lhe acertaste no coração? Está morto, mas foste tu que o mataste, não eu.
-Mas a aldeia não sabe, só nós. E sabemos que tu não querias que isto acontecesse, mas tinhas de passar por esta prova. Anda, corre! Não vês que esta é a prova de que podemos fazer o que quisermos?
Correram de mãos dadas. De vez em quando olhavam para trás. O leão não tinha fugido. Mara acertara como só os grandes guerreiros, corajosos e viris conseguem. E salvara Ngozi.
Nessa noite a festa na aldeia foi rija. Celebrava-se a bravura de Ngozi com cantos, danças, comida e muita bebida. Ninguém estava mais contente que Mara. Ngozi pouco participava, mas como lhe era reconhecido um carácter fechado, ninguém prestou importância.
Ninguém o viu desaparecer da festa horas depois desta ter começado.
Ninguém o viu ir buscar Mara, com um pequeno saco, a flecha e alguma comida (que tinha roubado da festa) e, partirem da aldeia.
Prometera a Mara que a iria proteger da vida que lhe tinha cabido em sorte. Ela tinha-o protegido com a sua própria vida.
Cabia a Ngozi cumprir a sua parte da promessa de fugirem em busca da vida que queriam e não a que lhes era imposta.
Nessa madrugada, antes do sol de novo lhes desejar um bom dia, desapareciam por caminhos empoeirados, rumo a outros mundos. Nessa noite Ngozi quebrava o seu muro e abria o círculo. Outros amigos haveriam de entrar. Matara o seu leão.

Aquela era a casa de ambos. A família. O mundo que conheciam. A herança das suas vidas.


Mas não as suas fronteiras.