quinta-feira, 30 de abril de 2015

Gostamos mesmo de viver aqui ?

Aterrei no planeta errado. Com a espécie errada. Ou houve mistura de genes e eu na altura de me candidatar ao lugar de “allien” exploradora fui trapaceada? Eu e mais uns quantos que nos juntámos nesta aventura.
Para qualquer lado que me vire, vindo de um canto qualquer do mundo, leio mais um disparate de quem odeia cá estar no planeta, de quem odeia a vida, e de quem odeia os parceiros de espécie.
Como Ele ou quem quer que inventou isto deve estar frustrado…
Vamos supor que se chama Deus( ou concílio dos deuses):
-Como rapaz despachado que é criou o céu e a terra e essas cenas todas em meia dúzia de dias.
Deixou cá o Adão e a Eva que eram doutro planeta e bazou (nenhuma outra mulher da terra para além da Eva consegue procriar tanto), não sem antes avisar:
-Multipliquem-se. Os únicos a fazê-lo foram a Maria Luís, os Espírito Santo e os monárquicos. Estes porque tinham criados a rodos e dinheiro para as fraldas e não pagam impostos.
Deus tinha mais planetas e galáxias para criar e eclipses para ver. E jogos de um campeonato entre galáxias que envolvia bolas. Enfim coisas divertidas.

Um dia ao pequeno-almoço lembrando-se pediu ao filho para cá vir controlar a coisa. O filho acabou a levar porrada de uns fariseus, traído por uns que se diziam amigos e "apóstrofos". Ao fim de 3 dias que foram mais mas não interessa nada, regressou a "casa". Mandou uma sms ao pai onde se podia ler: “perdoa-lhes porque eles não sabem o que fazem. Há lá uns idiotas e desses deve ser o teu Reino”.
O primeiro grande idiota fui eu por ter aceitado lá ir passar férias, pensou tirando o ipedra do bolso para mandar ao pai retratos e postes dos séculos de guerras, ódios e desentendimentos daquela manada de descontrolados.
O pai não estava, andava como sempre feito caixeiro viajante, a criar civilizações, disse-lhe a mãe, que era do signo cavalo no zodíaco chinês. Gostava de se montar nas estrelas e admirar meteoros sem sexo.


Encurtando a história, imagino agora o pai, Deus, que ao ler a mensagem decide regressar por estes dias, mais coisa menos coisa. Pergunto-me qual seria a reacção dele?
-Foda-se! Mas o que é que vocês andaram a fazer desta merda bonitinha e perfeitinha que vos deixei com oxigénio, água e alimentos com fartura?
De variedade suficiente em todas as áreas para que vocês pudessem fazer disto um sítio único?
"Desde quando é que deixei ursos polares castanhos?" 
Reis por ordem divina?
Que treta é essa do dinheiro? Que treta é essa de recibos verdes e trabalho para consumirem e consumo para trabalharem e pagar? Dívidas daqui para ali?
Desde quando é que os golfinhos comem plástico?
Pessoas que não podem circular livremente? Países que pertencem a quem? Esquecem-se que andaram todos em todo o lado em ciclos de violência. E continuam... Discriminação, racismo, violência de todas as formas de uns homens para com outros? Mas estes ciclos violentos nunca mais acabam?
Só vejo tesourinhos deprimentes nos postes que o meu filho me mandou…
E ora me atribuem culpas, ora inventam que é em meu nome, ora não existo. Dinheiro? Virgens no céu? Purgatório e inferno? Mas esta gente...
O que é que andaram a fazer com isto (pensa deus) falando em voz alta para os seus botões, enquanto cofia a barba magicando um plano para acabar com a brincadeira!
Cometi algum erro no processo, com alguma distracção enquanto andava a criar. Vou ter que abortar esta experiência. Esta gente afinal odeia este lugar!



terça-feira, 28 de abril de 2015

NEGRA

Ele estava a pintar e como faz sempre perguntou-me: "estás preparada? Chama-se Negra". Aqui está a poesia das cores de mais uma parceria entre o pintor Sidney Cerqueira e eu
De onde vens?
da minha história
da tua cor
ou ausência dela
de onde sou?
da tua história
de onde nunca me ausento
escrevo-te
conheço-te
sirvo-te
um dia devolves-me
retribuis-me
somos a cultura
fazemos o caldo
semeamos amor e paz
somos o chão
o útero e o coração
somos sol e vento
somos a grande chama
contamos uma história
a história do mundo
do mundo que não nos ama
uso-te para contar uma história
e em troca te peço
sobrevive para sempre
em nome da negritude
que mora na nossa alma

Os inocentes- poema a África

Imigraçon pintura
de
Sidney Cerqueira

O meu poema dedicado a África e aos seus filhos inocentes,
em especial aos milhares que perdem a vida procurando sobreviver.

Esta é mais uma história
que conta a morte da esperança
e da utopia
que morre à procura de vida
de quem não ouve uma só voz
em sua defesa
vinda de dentro da sua casa

Esta é a história de uma família
os suspeitos do costume
que vê os seus elementos partir
não apenas os observa
incita-os a morrer
incita-os de casa sair
incita-os a sua pátria não querer
e nem uma voz para os defender!

O que devemos fazer?
O que podemos fazer?

De quem nos podemos queixar?
Ninguém nada faz para os salvar
deixai-os afogar
deixai-os morrer

Nem da ponta do continente
que expulsa os seus filhos
para terras que um dia os exploraram
e continua a explorar
nem destas
que também não os quer
nem para a sua consciência aliviar

Nem da outra ponta do continente
não há ninguém que por eles queira olhar
primos-irmãos que expulsam os seus primos-irmãos
da terra que um dia deles precisou para os acolher
para se erguer

E na desesperança estes filhos do continente
procuram sobreviver
sem nenhuma voz
vinda de dentro da sua família
para os defender
para os ouvir
África minha,
África berço de todos nós
porque te fazes silenciosa?
quando as mortes dos teus filhos gritam alto
Fala, grita, faz-te sentir
Calas-te porque não és exemplo...
África minha,
África berço de todos nós
deixas-te morrer sem esperança
sem vozes, sem utopia
Estes que se calam a ajudam na matança
que filhos são estes que foste parir?

domingo, 26 de abril de 2015

ÉS CRAVO

Tombada no chão
uma bota pesada
de pés de bestas 
aperta-me a respiração
com esta política 
de eliminação, 
O fio que teima em sair
é a vida a querer subir
antes de uma irrevogável alienação
vinda dos acordos por baixo de panos crus
roendo-me a  imaginação
para nos deixarem nus
de novo um solavanco me tenta deixar cair,
vou buscar a única solução,
prefiro morrer a tentar-me levantar
que sem vida tombar 
sem sequer me esforçar
Vou en-cravar-lhes espinhos vermelhos
que encham a engrenagem de pó
até que a próxima revolução 
me venha encontrar
e escrava sem dó
com estas bestas acabar
Sou um cravo
escravo
espinhado
mas erguido

sábado, 25 de abril de 2015

​E tu?​

​​"A economia e a espécie têm na sua base a fotossíntese" . E como estamos a explorá-la para lá do limite aceitável, ou mudamos ou nos extinguimos. E sem fotossíntese nem economia,nem gente. Diz gente que sabe. Eu repito com base no que observo por aí. Vejo gente linda a puxar a carroça numa direcção e gente feia noutra. Uma pena esta medição de forças. Porque quem ganha é a fotossíntese. Por esse mundo fora.

​Na minha Ítaca, hoje, 25 de Abril, continuo a carregar a responsabilidade dada pela vida. A liberdade. Essa "ganda" maluca que anda à solta e não a conseguimos apanhar. Ser livre. Livre de quem quer que seja que me/nos oprime. Em nome da vida. Essa "ganda" maluca que me ordena que a procure.

Neste canto esquecido do mundo, que já deu algumas lições ao mundo e continua a ter gente que sobressai em várias áreas pelo mundo fora, andamos perdidos sem ela, não vivemos com ela, nem honramos quem no-la ofereceu. 

Menos ainda os que a herdaram e tiveram a responsabilidade, ​enquanto figuras no poder, de a manter. Esses adoptaram a filosofia do Rei Sol. "O estado sou eu" no absolutismo com que reinam. Julgam-se detentores do poder por ordem divina. Pois tenho a declarar-vos que não são. Nem inspirados, nem escolhidos. Dependem da fotossíntese. 
O meu lamento é que ainda não perceberam. Não há poder que perdure. Assim se percebeu com 48 anos de fascismo.

​Resta-me continuar a cumprir a minha responsabilidade de manter vivo no meu coração, nas minhas acções diárias, e, nas palavras que escrevo, o delírio de querer a liberdade absoluta na vida do meu pequeno reino​ em particular. 

A minha sobrevivência depende da fotossíntese e sem liberdade nunca serei mais do que uma estatística na economia deles. A economia deles nada é se as estatísticas não mostrarem vida.

Silenciar o que vai contra a vida é violentar a própria vida. Como o fez Salgueiro Maia entre vários. Por honrá-los, hoje e até a fotossíntese me entregar de volta à natureza, mantenho-me em modo: "actualização" de um novo sistema. Contra este sistema instalado que em nada honra o 25 de Abril.
Assim deveríamos estar todos.
Em nome da 
​vida em ​
liberdade.
​ ​

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Mediterrâneo

Não entendo
esta linguagem de violência
não entendo a razãodesta demência
da fome, da matança
só posso continuar a gritar:
não
o mar os seus espíritos nutre
que o mar perdoe
os seus violentadores
que semeiam nas suas entranhas a morte torpe
que o mar no seu balanço os corpos purifique
que o mar no seu canto apazigúe
que o mar para as suas almas seja libertador

Foto de Xavi Piera






Senhores aí do barco, eu tenho direito de viver onde quero! 
Até no meu país. Mas não posso.
Assim como aqueles meus irmãos que morrem a fugir. Mas não podem.
Por circunstâncias criadas por vocês perigosos predadores.
Tenho a sorte de não ter de atravessar o Mediterrâneo 
como o fazem irmãos meus que já vos deram tanto lucro.
Também fui obrigada como tantos milhares a sair do meu país.
Não por culpa minha, mas inteiramente vossa.
E já vos demos tanto lucro!
Mas tenho a sorte de não ter um mar Mediterrâneo
e estou viva.
Outros irmãos meus não.
Por vossa causa e da vossa psicopatia grave.
Vocês são os únicos que não considero meus 


irmãos!
E dizer isto eu posso

Amor orgânico

Amor orgânico
como o meu por ti
da mãe pelo filho
da terra por nós
pelo chão 
que me diz
que é todo meu 
o seu coração
é semente colocada 
sem especial cuidado
desponta no intervalo do nada
no nosso centro
está ali ao nosso lado
cresce sem rega 
nem feitiço, nem reza
tem seu próprio trilho
cresce intensificado
pelo próprio brilho
no nada se frutifica
por ele não se luta
é ele que conquista
se apodera
não se fabrica
não se pede, 
é ele que se dá,
encantado
nasce orgânico 
transforma
não pode ser transformado