domingo, 6 de setembro de 2015

Ide bardamerda

" Encheram o céu de bandeiras mas só há duas nações-a dos vivos e a dos mortos" Mia Couto
uma criança de oito anos a disparar uma espingarda
para matar quem o quer matar
uma criança de seis anos a chorar paralisado
um queixo de um adulto que treme e precisa do amparo de uma mão
os morteiros, as balas caiem no jardim,
entram pela janela do quarto
denúncias nascidas de ódio
prisões aleatórias
portos cheios, barcos cobertos
aeroportos com o chão feito de corpos
cobertos de lágrimas, cobertos de poeira feito medo
só resta a dor, o terror,
o vazio
na minha casa, na casa ao lado
na alma de quem tudo perdeu
Este foi o cenário de quem viveu os dramas das guerras civis em Angola e Moçambique em 1974/75 de onde saíram milhões de refugiados de uma guerra que nasceu sem ser querida.
Portugal, pobrete e miserento, sem vontade e rancoroso, teve de receber esta gente sofrida, desamada e desarmada pelos seus países de origem.
Em 1998 na Guiné-Bissau repete-se o cenário. Gente e mais gente,foge da morte que incansável os busca.
De novo Portugal, menos miserento, menos pobrete mas de nariz franzido, acolheu.
Neste mundo com fronteiras e bandeiras criadas pelo homens que nada são de bem, por interesses sobre recursos, interesses geopolíticos, estratégicos, de poder e domínio, só temos uma obrigação como humanos: combater os que não o são e acolher quem precisa.
Ps, não esquecer que Portugal enquanto pôde colonizou, explorou, sacou, pilhou, no mundo onde atracou. Hoje tem milhões de filhos que saíram em busca de vida porque se tornou ainda mais pobrete e miserento. Uma guerra sem armas.
Cabe-lhe sem espernear, à nação portuguesa, abrir as portas a quem dela precisa por razões humanitárias. Como a todos as outras nações de qualquer continente.
Este pedaço foi cuspido como um grito de raiva para contrapor quem pensa que não devemos abrir a porta a refugiados porque não temos condições e porque por cá temos gente a morrer na rua e com fome.
Serei talvez uma delas e com um refugiado divido o meu cartão!
Quem nunca viu a morte bater-lhe na alma com as lentes de uma guerra não sabe do que fala.
Ide bardamerda!


domingo, 30 de agosto de 2015

Um mundo radical

Escrevi agora e dedico à minha amiga Ana Malafaia que me inspirou e me ofereceu palavras. Inspirou-me com as nossas conversas sobre o mundo.
Ela que se sente e é uma nano bactéria no combate aos radicalismos neste mundo que também não é o dela, mas como eu, respira-o. 
É dedicado a todas as nano bactérias que combatem com esperança os radicalismos e se recusam a usar o código de Hamurábi para os combater.


No meu mundo radical
tudo está inventado
tudo está pensado
tudo praticado
radicalismos e intolerâncias
soluções e bem-aventuranças
neste mundo que não é o meu
mas é o mundo onde sou esmagado
onde o medo foi o programa instalado

medo de perder a casa, o trabalho
a estabilidade financeira
medo de perder a família
medo de perder a vida inteira

a história do mundo é feita de guerras
de estados terroristas pestilentos
células malignas
de intolerância
xenofobia e morte
e nós que queremos apenas existir
vivemos mergulhados 
nos seus excrementos
e pouco conseguir

os estados radicais
estão de novo a conseguir
dominar
metade do mundo tem medo
da outra metade
ninguém diz a verdade
já só o medo faz pensar

querem-me radical
xenófoba, racista, intolerante
contra judeus, católicos
palestinos, muçulmanos
ou demente,
a combater a luta 
olho por olho dente por dente

não vejo solução
para este mundo mortal
que me quer parcial
a combater radical com radical
vim eu a este mundo
para ser este feio radical?

não, não cairei nessa armadilha
reconheço no espelho
no outro que sou também eu
o meu deus
na mesma trilha

não, não caio na armadilha
de ser intolerante e radical
mas serei bactéria radical 
nano organismo 
radical
prenha de fé 
imortal
na barriga prenha
de nano bactérias
dentro do mundo
no combate ao medo
dos que fazem do meu mundo
um mundo anormal
e radical


quinta-feira, 27 de agosto de 2015

O circo chegou à cidade

O circo chegou à cidade

Cautela e caldos de galinha. Andam à solta animais rastejantes completamente identificados. Nas próximas semanas iremos ser tratados como estúpidos, imbecis e com elevado grau de deficiência mental. 
Pelos animais autistas, fugidos do circo e, em campanha. Estão vestidos de palhaços mas são cegos e surdos aos seus próprios olhos e ouvidos. Porém falam muito. 
São os mestres de cerimónias em disfarce e embuste.
Se os ouvirem com discursos de vencedores, desconfiem ainda mais. Estão sob o efeito do poderoso alucinogénio chamado poder. 
Cautela e caldos de galinha. Estes terroristas do universo contemporâneo estão armados de propaganda e manipulação e julgam-se a ultima bolacha do pacote em tempo de fome.
Se vos tentarem vender banha da cobra,desconfiem, mudem de caminho, gritem pela polícia :socorro vem aí um político da coligação e dos outros que por lá andaram a comer desde que descobriram o ovo de Colombo que é roubar um Estado!

Lembrem-se dos milhares que perderam as suas casas, empregos, famílias para a emigração, meios de subsistência,crianças com fome nas escolas, hospitais sem médicos, enfermeiros ou capacidade de resposta, lembrem-se serviços de apoio a idosos que desapareceram, pensões roubadas, nova escravatura com contratos de 1 mês, ou recibos verdes, salários terceiro-mundistas e largos milhares no desemprego, lembrem-se dos negócios ruinosos feitos por eles, em nome do Estado, para estes animais devidamente identificados beneficiarem.
Quando ouvir a frase desacreditadora " mas votar em quem"? Os outros não têm experiência...
Corra, corra, corra para bem longe ou voe num drone se preciso for.
A experiência adquirida por estes animais circenses é de se aliarem no roubo fazendo mais do mesmo. 
Os inexperientes são os navegadores portugueses.
Se os navegadores não tivessem sido afoitos e não tivessem pensado fora da formatação dos velhos do Restelo, o caminho marítimo para a Índia teria sido uma travessia de descobertas...dos mouros.
Não sejam tótós, nem se tornem aqueles adultos infantilizados a colorir livros para crianças. 
Estes são tempos de resistência, de rebelião. 
De fechar nas jaulas os animais ferozes e perigosos que andam à solta.
Não esqueçam, eles são simplesmente as bolachas podres do pacote.
Para não sermos todos atacados por um vírus causador de maiores diarreias, não as comam.
Antecipem e tenham cautela. Bebam caldos de galinha.
Sejamos os navegadores da esquadra capitaneada por Gil Eanes ou Vasco da Gama.

Os Deuses quando zangados clamam por sacrifícios sangrentos dos humanos. Lembrem-se que os Deuses contemporâneos são estes animais a quem não devemos dar mais do nosso sangue.
Ou seremos os animais da imagem: afundamos no nosso próprio veneno enquanto tiramos um retrato ao acontecimento. 
Seremos julgados na História como um povo não apenas narcotizado pelo circo mas verdadeiramente estúpido.


domingo, 23 de agosto de 2015

África


Nasceu abençoada
mulher,
continente no masculino, 
subjugada, violentada, sem destino
por ela canto hinos
carrega filhos que a debilitam
que a deixam exangue
dentro de si o céu nasce em tempestade
o sol deita-se sangrando fogo
abriga-me sonhos
de vida
as vozes que nela nascem
e por ela pedem paz
são a sua profunda essência
"she lives a life she didn´t choose and it hurts like brand new shoes" Sade,Pearls
Aos africanos, em especial aos activistas dos direitos humanos, que vivem debaixo de ditaduras e pedem paz dando a sua própria vida.
Em especial par o chão onde o meu umbigo está enterrado, Guiné-Bissau Para quando a re-evolução?
Aos artistas cabe jogar com a arma que têm em nome da paz.
Seja musica, poesia, literatura,pintura...

sábado, 22 de agosto de 2015

Pinheiros, finitude, ouro e fascismo

Eu era uma criança de sete/oito anos, apanhava pinhas para retirar os pinhões, que partia com uma pedra para comer o seu fruto. 
O meu avô, que me dava livros que falavam de algo desconhecido como a liberdade, ensinou-me o valor que ela tinha. Vivia-se na ditadura em Portugal. A maioria das pessoas era pobre. Eu era pobre. Nada faltava na mesa,mas os sacrifícios eram grandes. Nem eu tinha consciência quanto.
Enquanto partíamos pinhões o meu avô explicava-me Goethe e Tolstoi.
A filosofia escorria por entre os dedos cheios de resina.
Agir e unir a finitude ao infinito da e na vida, era o sentido que eu deveria encontrar no tempo que por cá passasse explicava-me ele.
O meu avô passava-me toda a informação que podia, porque sabia que o seu tempo era finito. Eu, como qualquer criança era uma esponja, mesmo não entendendo bem as suas razões, absorvia os seus ensinamentos enquanto comia pinhões com dedos resinentos e ar descontraído.
Na altura, o que mais preocupava o meu avô era o fascismo. Que eu vivesse a minha vida debaixo de uma ditadura sem conhecer a liberdade. No seu tempo, em África, na América Latina avançava o fascismo da colonização. Do saque do ouro e demais recursos preciosos para encher cofres. Sem os fascismos tal não seria possível. As guerras faziam-se em nome dele. O meu avô passou por duas grandes guerras e sabia-o. Não queria que eu vivesse apenas conhecendo essa realidade. Por isso me encaminhava para o passeio da filosofia e da literatura.
Hoje o que mais me preocupa é o avanço a galope dos fascismos. Onde vivo, na terra do meu avô sendo eu própria já avó.
Onde os pinhões deixaram quase de existir, não tenho pinheiros para ir partir pinhas com a minha neta e/ou e encher os dedos de resina. Onde os pinhões custam um preço que não posso comprar. Onde voltei a ser pobre. Por causa de fascismos.
De onde estou transporto o olhar ao outro lado do Atlântico no Hemisfério Norte, do Mediterrâneo, do Mar Morto, ao Hemisfério Sul, na Europa, por todos os mares navegados e, vejo-o a bramir a bandeira em cada pedra dos muros que o fascismo constrói.
Se vivo preocupada com a minha sobrevivência, rodeada de escassez imposta pelo dinheiro e falta de liberdade, onde encontrarei o tempo e o pinheiro, necessários para a filosofia? Para unir a finitude ao infinito da e na vida, que é o sentido que eu tenho de encontrar no tempo que cá passo, conforme aquele homem bonito me ensinou e, como eu quero ensinar à minha neta?
Imagino-a a viver em liberdade. A partir pinhões e a comê-los com dedos resinentos e a ouvir conversas de filosofia.
Sem a escravidão imposta pela monetarização do tempo de vida.
Para que possa unir o finito ao infinito dos tempos.
Hoje, tal como o meu avô, tive uma vida a assistir ao saque dos recursos na minha terra África e na Europa, à implementação de novas formas de ditaduras e novos saques, ao enriquecimento dos saqueadores, ao abafar da liberdade.
Hoje tal como o meu avô, enquanto lhe escrevo histórias que falam de liberdade e filosofia, e, com ela brinco com os pés sujos de terra num lugar onde já não crescem pinheiros, a preocupação que tenho para a vida da minha neta é o avanço vergonhoso que vejo aos fascismos.

Pinheiros, finitude e fascismo

Eu era uma criança de sete/oito anos, apanhava pinhas para retirar os pinhões que partia com uma pedra para comer o seu fruto. O meu avô que me dava livros que falavam de algo desconhecido como a liberdade ensinou-me o valor que ela tinha. Vivia-se na ditadura em Portugal. A maioria das pessoas era pobre. Eu era pobre. Nada faltava na mesa,mas os sacrifícios eram grandes. Nem eu tinha consciência quanto. 
Enquanto partíamos pinhões o meu avô explicava-me Goethe e Tolstoi.
A filosofia escorria por entre os dedos de resina.
Unir a finitude ao infinito da e na vida era o sentido que eu deveria encontrar no tempo que por cá passasse. 
O meu avô passava-me toda a informação que podia, porque sabia que o seu tempo era finito. Eu como qualquer criança era uma esponja, mesmo não entendendo bem as suas razões, absorvia os seus ensinamentos enquanto comia pinhões com dedos resinentos e ar descontraído. 
Na altura, o que mais preocupava o meu avô era o fascismo. Que eu vivesse a minha vida debaixo de uma ditadura sem conhecer a liberdade.

Hoje o que mais me preocupa é o avanço a galope dos fascismos. Onde vivo, na terra do meu avô.
Onde os pinhões deixaram quase de existir, não tenho pinheiros para ir partir pinhas com a minha neta e/ou e encher os dedos de resina e os pinhões custam um preço que não posso comprar. 
De onde estou transporto o olhar ao outro lado do Atlântico no Hemisfério Norte, do Mediterrâneo, do Mar Morto, ao Hemisfério Sul, por todos os mares navegados e vejo-o a bramir a bandeira em cada pedra dos muros que constrói.

Se vivo preocupada com a minha sobrevivência, rodeada de escassez imposta pelo dinheiro e falta de liberdade, onde encontrarei o tempo e a árvore necessários para a filosofia?

Para unir a finitude ao infinito da e na vida, que é o sentido que eu tenho de encontrar no tempo que cá passo, conforme aquele homem bonito me ensinou?

Imagino-a a viver em liberdade. A partir pinhões e a comê-los com dedos resinentos e a ouvir conversas de filosofia.
Sem a escravidão imposta pela monetarização do tempo de vida. 
Para que possa unir o finito ao infinito dos tempos.

Hoje, tal como o meu avô, a preocupação que tenho com a vida da minha neta é o avanço dos fascismos.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Outros como nós


encolhemos os ombros 
ao ouvir falar de outros como nós
imigrantes mortos
com fome de vida
baixamos os olhos
envergonhados
aos mortos, aos abandonados como nós
por outros como nós
ao relembrar imagens de outros como nós 
de pijamas às riscas
em valas comuns
deixados em cinzas irrespiráveis 
por outros como nós
abanamos a cabeça
perante fogueiras que queimaram
outros como nós
por outros como nós
fechamos os olhos sem entender quando lembramos
outros como nós
em galés de escravos amontoados
num misto de sangue, excrementos 
e sal de lágrimas
dobrados por outros como nós
cerramos os dentes as saber da exploração
de homens,mulheres e crianças como nós
que perderam a inocência
violentados na sua dignidade suprema
por outros como nós
sentimos o sangue correr quente
por mulheres e crianças 
raptadas, violadas, mortas, 
deixadas à vontade 
de mãos com cheiro a morte
de outros como nós
enquanto pensamos que nada podemos fazer 
perante a destruição,
a guerra, 
a opressão, 
a violência
a fome
que como erva virulenta 
se espalha e destrói
na Rússia, no Iraque, na Síria
no Mediterrâneo, na Índia, na Europa,
em África, no Afeganistão
em nome da ganância, do sexo,
do poder, do dinheiro, 
numa História longa de sofrimento 
nós os outros pensamos 
-este mundo é alheio a nós

relembremos enquanto ainda sentimos vida
prazer e amor
enquanto ainda sonhamos e criamos 
mundos de poesia, momentos de alegria
que não morremos 
e precisamos acreditar
que precisamos nos salvar
que se matamos, violamos, 
violentamos, agredimos 
e não agimos, 
se não temos a audácia, a coragem
de defender, de honrar
construindo laços
com outros como nós,
enfrentando os demónios 
dos outros como nós
saberemos que somos todos nós
responsáveis,
que todos os que somos nós,
do passado, do presente
do futuro
fomos, somos e seremos 
um mundo sem triunfo
feito para nós
por nós 
e outros como nós
sempre nós,
sós