quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Algumas considerações sobre activismo político, direitos humanos, prisões arbitrárias, ditaduras e falta de liberdade de expressão.


É preciso não temer a liberdade para se oferecer a vida por ela.
Cada um deve fazer o que se sente inspirado a fazer e essa é a beleza da liberdade.
Foi assim com os resistentes à ditadura de Salazar e com todos os ditadores mundo fora. Com gente desta fibra nasceu a Resistência durante a Segunda Guerra Mundial. A série Alô alô conta como foi para quem se quiser lembrar.
Gente de todas as idades fez ao longo da História, parte de movimentos clandestinos de luta contra opressores. Resume-se aqui a história da Humanidade. Opressores e oprimidos em lutas fratricidas.

Todos os seres humanos procuram ver as suas necessidades satisfeitas sejam elas de que natureza for. E com vista a esse fim, melhor ou pior, individual e colectivamente desenvolvemos estratégias.
Com os recursos que a terra nos oferece de mão beijada algo inscrito no ADN da natureza humana sobressai: a ganância. E a estratégia passa a ser, uns terem mais do que outros e sujeitar os seus pares a situações extremas de sobrevivência.
A pobreza é o dinossauro nunca extinto para bem reinar (mesmo que declarem que a extinguem em 2030 e eu assino a declaração). A vaidade humana usa desde tempos sem memória a rede social da ostentação porque não lhe chega apenas o desejo de ter mais do que o outro. Precisa de mostrar.
O mundo vive num estado de profunda e patente hipocrisia, de guerra permanente e, medo constantemente latente. 
Resume-se aqui a história dos símios pouco sapiens que somos. Apenas variam as vestes. Ou seja, a moda evoluiu bastante. Libertou-nos das quatro patas e pêlos, para pesadas armaduras até chegarmos aos leves drones e ao fio-dental.
Só a nossa estratégia não evoluiu. Oprimirmos alguém menos forte, mais ignorante, mais ingénuo, mais submisso, mais medroso mantendo-o pobre. Vá lá, comecem a desenvolver outras...ou talvez não, estas dão bons resultados!
Homens de elevada estatura, de Ghandi a Mandela passando por Steve Biko e Amílcar Cabral, trazendo no bolso Henry Thoureau, inspiraram e continuam a inspirar gerações. Gene Sharp, o autor que algumas más línguas dizem que é pago com dinheiros americanos, escreveu um livro de resistência pacífica. Livro esse, estudado e inspirador de movimentos de revolução, de movimentos de contra-poder à opressão. De Resistência. As chamadas primaveras árabes. Primavera essa que o regime angolano tem medo. O Inverno é uma estação mais propícia à manutenção do status quo de Angola. Mas é o descontentamento de muitos que já não se deixam enganar. São as sementes que tentaram enterrar e que hoje brotam pujantes. Não precisam que uma qualquer nação lhes pague para resistirem. E se pagarem? Não foi assim que movimentos como o PAIGC, o MPLA, a FRELIMO, ANC lutaram e formaram quadros de resistência ao colonialismo. A história que se seguiu dentro dos movimentos é outra história. Mas tem nome.
Chama-se ganância e ostentação.
Esta é a resistência criada por estes jovens, que vêem o seu povo martirizado, com fome, e, roubado em nome da eterna ganância e ostentação.
Relembrando factos da História, Mandela passou 27 anos na prisão, fez greve de fome, num período que todo o mundo aceitava o apartheid como normal numa sociedade desenvolvida... Ghandi fez greve de fome e resistiu num período no qual o colonialismo (actualmente globalização) era aceite e “tradição” entre nações…
Hoje são inspirações. Talvez encontrem nos computadores e debaixo dos colchões destes jovens, livros com relatos reais da resistência pacífica destes homens. De que serão acusados? De tentativa de golpe de Estado? Pagos por quem?
Outros pensadores inspiraram os homens e mulheres que se propuseram libertar outros homens e mulheres como eles, de domínios absolutos sobre as suas liberdades.
Nunca fomos tão evoluídos tecnologicamente e as redes sociais hoje servem de meio de comunicação alargada entre o mundo inteiro. E isso é fundamentalmente bom. Porque podemos criar grupos de solidariedade do mundo para a Síria, do mundo para Angola, do mundo para o Médio-Oriente, do mundo para as crianças raptadas por grupos extremistas, do mundo para mulheres agricultoras em luta contra a Monsanto na Índia, do mundo para a Guiné-Bissau e seus algozes, do mundo para o Brasil e os Índios que protegem as suas terras e são mortos, e, de um sem número de causas justas que mostram a involução do símio que somos.
As redes sociais que fazem a ponte e ligam os grupos que fazem resistência e contra poder são essenciais para uma sociedade ética. Os livros e os vídeos de pensadores que nos trazem tudo o que já foi inventado desde Sófocles traduzido em pensamento contemporâneo são vitais para a formação e para a educação. Essenciais para desconstruir e desmontar os robôts sem alma em que nos querem transformar. Temos corpo e alma e ambos servem o propósito do nosso percurso na terra.
Uma sociedade sem gente empenhada em salvar um seu par é uma sociedade sem alma.
Não é desperdício dar a vida por causas desta importância. Estes jovens activistas em Angola e Luaty (há trinta dias) em particular, e BingoBingo, estão a dar a sua vida a outros.
Quem sou eu para julgar a sua decisão por mais que me custe e por mais que saiba quem o seu opositor é? Tem sido esse o lema em Angola, vinda de quem um dia por ironia e esta sim uma enorme piada cósmica, quis ver o seu povo ser liberto do opressor colonialista. Ou talvez não. Apenas lhe quis o lugar.
Parece uma piada de mau gosto vinda do cosmos. Mas só nos podemos opor e resistir ao que nos é contrário e naturalmente neste caso, o que vincula a vida à violência.
Foi assim que vimos o mundo avançar, apesar dos pesares. Com resistência e luta. O povo angolano está já a perceber os efeitos desta acção e nunca mais será o mesmo.
Luaty e demais jovens repito-me, encontrar-nos-emos no futuro onde espero que tenhamos uma sociedade mais...humana. É esta a luta.
Hoje no Rossio!
Amanhã 22 Outubro, em frente ao Consulado de Angola em Lisboa.
Os factos:
4 meses após a prisão dos jovens activistas sob a acusação humorística de tentativa de golpe de Estado para derrubar o Zécutivo, ao serem apanhados a ler o livro sobre resistência pacífica...
Mais de 90 dias de prisão sem acusação e sem liberdade como manda a lei.
Vivem em condições que desconhecemos. 
Por todos os angolanos que já morreram à fome governados por um regime que tem comido como se não houvesse amanhã e os mantém na ignorância e na pobreza, estão presos activistas políticos que resistem ao regime e em greve de fome.
Exigem a liberdade imediata de todos como prevê a lei, para que aconteça um julgamento que todos imaginamos será livre e justo...

Há quem peça que parem a greve. Há quem peça cartas de amor. 
Todos os gestos são de amor. Amor pela vida. Ninguém quer ver ninguém nos dias de hoje ser sacrificado como na Idade Média. Evoluímos. A ética e os direitos humanos não são, mas deveriam ser os pilares de qualquer sociedade moderna. Que Angola não é, nem Portugal.
Os gestos de amor dos activistas e os gestos de quem os ouve cá fora, sofrem com esta escolha e, pressionam tudo e todos para que termine este horror. Não deveria ser assim.
Neste braço de prepotência do regime , os jovens estão a ser usados como elemento dissuasor. 
Eles são como Rafael Marques, os elementos de fuga da panela de pressão, que não é mais possível tapar.

Conclusão:
Tudo tem princípio meio e fim como a vida. 
Como as todas imposições do homem sobre o homem-opressor versus oprimido (apartheid, colonialismo, ocupações, e regime ditatoriais).
E este regime tem os dias contados queira ou não.

Estes jovens têm de fazer greve de fome pelos milhões que têm fome e a ela são forçados pelos seus governantes. Felizmente são a consciência do povo e nós com as barrigas confortadas, temos de ser parte da boca que tem fome e que não cala a fome de liberdade.
Hamlet o príncipe de Shakespeare disse que lhe bastava-se a ele próprio com a sua casca noz para ser feliz. A casca de noz é a sua consciência.
Quando se pergunta olhando para a caveira “ser ou não ser?” pergunta-se implicitamente: perante a inevitabilidade da morte quem quero eu ser? Feliz com o ser que é a minha consciência ou ser uma qualquer figura falsa?
Antes ser feliz com a minha consciência pensou Hamlet. Certamente que estes activistas assim o pensam, são verdadeiros consigo próprios, despidos de personagens falsas, por isso se torna mais difícil se relacionar com o mundo que se desenrola no palco das suas vidas.

Agradeço a compreensão de quem me lê, em relação à minha consciência e às minhas expectativas, quem sabe perversas como ser humano, em querer que a ética e a bondade vinguem. O extraordinário é que cada vez mais gente se vira nesta direcção de mudança. Quero acreditar que esta é a boa notícia da evolução.