segunda-feira, 4 de agosto de 2014

A morte é nossa companheira


E a escrita a minha cúmplice para aliviar as perdas. Cada um usa os clichés mais próximos da memória, para que a sua vulnerabilidade perante a morte não se torne tão vulnerável.
Aqui deponho a minha vulnerabilidade perante a insondável morte que me leva quem eu tenho amor. Quem eu gosto de cuidar e nutrir e de saber que está ali. À mão de semear e colher. Uma conversa, um sorriso, um agradecimento, um cumprimento. Um olhar, um abraço. Ou um arco-íris de prazeres simples.
No mundo escuro e profundo dos oceanos, os mergulhadores protegem-se com os seus fatos e avançam na corrente rumo ao desconhecido. De milhões de mistérios. 
Isso é também a vida. O livro em branco. Do desconhecido. Ou deveria ser, a partir do momento do nascimento. Um livro que nos revela um mundo sem respostas. Para levantar muitas questões.
Os maiores mistérios são o nascimento e a morte. Os que nos trazem as maiores vulnerabilidades. Quem nunca se sentiu pequeno face ao milagre misterioso do nascimento de um ser? Vulnerável e sem saber como fazer deste momento para a frente? 
Quem não se sentiu vulnerável, frágil e sem direcção, à beira do precipício quando tem pela frente o maior mistério da vida, a morte? Da perda de alguém? 
Perda? Ganho?
É este paradoxo que a vida exige de nós. Procurar o equilíbrio no fio da navalha que nos oferece. Calcular o risco e o plano para nela caminharmos rumo ao desconhecido. Os grandes mistérios com que nos deparamos. 
O corpo é a matéria densa que um dia se desapega e nasce num outro campo desconhecido. E para este mistério resta-nos a força e a segurança da condução do espírito que habita dentro de nós, leve, e, sabedor das nossas forças.
Dentro do útero o mundo é escuro e nada nos revela o quê, e, se existe exterior. 
Saímos deste mundo, de mergulho, na luz. Mas talvez aqui resida a primeira lição da nossa entrega na vida. Deixarmos a porta aberta em forma de rendição para o mergulho no mundo escuro, que está para lá do que vimos conhecer.
A vida é “ terra incógnita” e apenas tem uma estrada. Perder-mo-nos nela, submetermos-lhe a bandeira branca da rendição, da entrega, é a via para nela encontrarmos senão respostas, pelo menos sentido. No mergulho no desconhecido. Não com medo de perdermos, mas a nela nos perdermos. 
Na morte oferecer resistência talvez seja anti natural. Como no nascimento. 
Quando este desconhecido chega e abre a sua porta, aprendemos a maior transformação a que estamos sujeitos na vida, como quando nascemos. 
Quando a morte chega ficamos a perder?!
Talvez quando aprendermos a nos desapegarmos de pessoas, objectos, situações, experiências, oportunidades, saberemos que o desconhecido nos traz riqueza nas perdas. Mesmo quando perdemos tudo. 
Que sei hoje mais do que ontem?
Não sei. Talvez nada.
Mas vou continuar a não resistir. A deixar guiar-me pelo desconhecido. 
A na vida me perder. A nela me abandonar para nela poder encontrar as minhas riquezas. Vindas das suas profundezas. Em forma de gente que ganho. De experiências que me enriquecem. Em forma de oportunidades que me trazem maior consciência. Mais conhecimento.
Até ao dia em que me encontrar com o desconhecido que me levará de novo a mergulhar no nascer. E a me encontrar com aqueles que ganhei. Porque hoje apenas sei que de nenhum me vou perder.