domingo, 13 de dezembro de 2015

"Benditas sois vós"

Uma crónica para as minhas mulheres. Aos homens fará certamente bem usarem-se dela.
"Benditas sois vós"
Vamos partir a loiça!
Hoje as mulheres sauditas vestidas de burka, proibidas de conduzir(logo conduzidas pelos maridos), votaram pela primeira vez em eleições municipais e até elegeram uma candidata.
Na religião, sexo e pecado caminham juntos com a vergonha de sentir desejo e o desejo de o saciar e, mesmo tendo Jesus dito "quem não tiver pecados que atire a primeira pedra" a nossa sociedade patriarcal continua a defender orgulhosamente os homens e a obrigar mulheres à rebelião.
Mas elas andam a partir a loiça!
As mulheres que se arriscam a papéis de relevo e poder têm de "ter os tomates no lugar". Onde vou com esta reflexão? Não sei, mas é sobre a escolha de ter uma vagina que quero escrever. Vaginas que partem a loiça.
Ainda bem que nasci mulher num mundo dominado por homens. O português que falo,escrevo e penso é machista, logo esse foi como mulher, o meu primeiro código a desmontar...Hoje adoro o equilíbrio da língua masculina carregada de poesia feminina.
Como qualquer ser humano todos temos um certo grau de ansiedade e depressão pelo somatório de experiências que vamos acumulando.
Ontem podíamos ser bipolares, hoje hiperactivas e amanhã instáveis, inconstantes e irresponsáveis ou ao contrário.
Eu mulher, fui uma criança, fui uma adolescente e sou uma adulta que alterna entre todos estes rótulos. Tanto andei à tareia com colegas de escola porque me chamavam preta da Guiné (ansiedade de verdade manifestada em hiperactividade), como me isolei e ficava horas e dias a fio a ler e a estudar (depressão), como socializava despudoradamente com os tropas na Guiné- Bissau em tempos de guerra colonial e desaparecia de mão dada com algum tropa, fazendo a família andar desesperada à minha procura (bipolaridade,feminilidade, e rebeldia). Tinha cinco anos.
Se o fizer hoje ninguém anda à minha procura. Isso de desaparecer de mão dada com alguém. É normal, sou mulher, preta da Guiné, adulta, posso dar a mão a quem quiser, desaparecer e fazer sexo com quem me apetecer. Mas ainda posso ser mal vista, não é um cenário descartável.
Deitei um dos mitos da religião abaixo e esta é uma das razões de dizer : ainda bem que nasci mulher num mundo dominado por homens.
Porque tive de corajosamente construir o meu caminho. E levantar-me como pó em terras de ventania.E preconceito.
Tornei-me uma mulher que quer como referência outras mulheres e que as mulheres sejam referências para as mulheres.
A referência principal da minha vida foi o meu avô por isso nada tenho contra homens. Ele foi tudo para mim e educou-me para ser uma mulher independente e livre.
Ensinou-me a ser a expressão da minha essência. O feminino.
Eu tive a obrigação de ensinar o meu filho homem a ter respeito e valorizar a mulher, nunca se julgando como ser superior como o é a cultura dominante. A ser sensível e emocionalmente inteligente. A estar na vida com amor. pelos outros sobretudo se forem mulheres. Ele está.
Ar, Água, Alimento, Abrigo, Agasalho são os cinco "A"´s essenciais ao ser humano (que aprendi com um sem abrigo por escolha), eu junto-lhe o sexto como forma de curar todas as patologias do mundo: Amor.
Somos porque os outros existem e nos espelham, nos dão amor, nos validam, nos respeitam, nos apreciam, nos vêem. E as mulheres têm tido tão pouco de tudo isto que se torna ainda hoje assustador. Por isso mais amor é preciso.
E, sabemos intuitivamente que o mundo seria mais equilibrado se homens e mulheres se conduzissem mutuamente com respeito, amor e sem burkas que vedem o olhar sobre cada um.
Aliás o mundo já existiu debaixo do matriarcado (assunto para outra crónica).
Conheço muitas mulheres e por elas faço esta reflexão. Eu sou todas elas (como diz a canção) e eu como as que conheço e não conheço, as minhas antepassadas, as delas e as que virão, tive de lutar contra os homens que não me deram amor, não me viram, não me validaram, não me respeitaram, não me deram o devido valor, numa circunstância ou noutra.
Levei lutas para casa, trouxe lutas para fora de casa, como essas mulheres e como as que ainda vão ter de lutar.
A luta é por um reconhecimento no posto de trabalho, pelo trabalho árduo como mães, pelo esforço de não continuar numa relação tóxica ou violenta, pela desistência em situações de chantagem emocional ou sexual, quando sofremos na pele o desafecto da família, quando a família se desliga porque não correspondemos às suas expectativas, quando nos encolhemos e nada falamos, ao toque inapropriado de um tio, de um irmão, de um pai, ou qualquer agressão sexual, física e outros innuendos, de estranhos, colegas ou amigos.
Ser mulher ainda hoje é conviver com todas estas formas de violência em todos os cenários imagináveis, ou impensáveis, diariamente.
É verdade sim, com as mulheres pretas o cenário piora em todas as circunstâncias. Basta olhar e ver à nossa volta.
Não vale a pena fazer barulho sobre o assunto ? Talvez o erro da mulher tenha sido o de deixar passar a carroça sem fazer barulho. Castrada pela religião que a carrega de vergonha. Vergonha do pecado, do sexo ou de ser a sua essência.
Somos todos diferentes com pouco ou muito barulho. Esta é uma realidade. E até hoje continuamos a aceitar que nos digam que não devemos ser diferentes desses homens e mulheres que têm na religião e na intolerância o seu dogma. Que devemos ser submissas e obedientes.
A realidade da maioria das mulheres (posso dizer todas, porque todas já vivemos uma ou outra destas experiências), todas elas transpirando feminilidade, insubmissão e desobediência ainda é ter de bater o pé, dizer não mais do que uma vez, atirar um estalo, gritar com a mãe que não vai fazer algo que lhe "destinou" o seu papel de mulher, fazer uma queixa na polícia por violência e/ou violação, fechar os olhos ao apalpão do patrão ou do tio...e por aí fora. E sim, tudo isto é errado e não nos devia acontecer.
Nenhuma mulher vive confortavelmente nestes sapatos de luta constante. Felizmente muita coisa está a mudar. Lentamente,muito lentamente. As mulheres ainda têm muita estrada para calcorrear porque ainda têm nos homens as suas referências e, entraram no caminho da competição. Querem ser iguais a eles. E este não é nem nunca foi o meu caminho. Nem o é o das mulheres.
O poder da mulher é justamente o de ser diferente. Eduquemos, ensinemos, formemos as nossas filhas para não terem vergonha. Ensinemos,formemos, eduquemos os nossos filhos a integrar a beleza do feminino e a respeitarem-no.
Padeço de algumas patologias que não me foram diagnosticadas por médicos, por causa das minhas lutas como mulher:
-uns dias ansiedade e noutros depressão, uns dias bipolaridade, outros hiperactividade entre outras disfuncionalidades.
Não se tornaram graves porque sempre tive mulheres e homens que me ouviram, protegeram, elevaram a minha auto-estima e deram amor.
Tornei-me uma lutadora voluntária contra a vergonha sexual, a religião castradora e a falta de oportunidades sabotadas às mulheres.
Urjo as mulheres a ensinarem os filhos a amar as mulheres para além do seu papel tradicional oferecido em dois mil e quinze anos por homens que nada sabem de mulheres.
Jesus, que eu saiba nunca as tratou como os que assumiram o controlo do Cristianismo e ainda disse- " quem não tiver pecados que atire a primeira pedra".
Ainda bem que nasci mulher e preta, num mundo dominado por homens e brancos.
Ao passar por todas as experiências desta viagem, encontrei o caminho para a minha essência. Aprendi a ouvir a minha intuição. Tornei-me bambu. Oscilo mas os tomates femininos da vontade e a determinação fazem-me voltar à forma original.
Por isso, sem o espírito da época que nada me diz, praticante de Amor diário, lembrem-se todas as Marias da terra:
-Não precisamos que nos dêem nada, só precisamos que não nos tirem as oportunidades de manifestar a nossa essência.
Nós escolhemos ter os tomates femininos.
E partir a loiça!