domingo, 1 de dezembro de 2013

Carta de alforria, Na espuma dos nossos dias



No dia em que um grupo de portugueses se fartou de ter os espanhóis a reinar e se rebelou.
Vamos fazer com que deixem de novo de reinar connosco.



Venho fazer uma denúncia.
A senhora Presidente da Casa do Povo diz que é um crime protestar (e grandolar) nas galerias dessa casa, paga com os impostos dos constituintes.
Diz que vai fazer um estudo…certamente que o mesmo será pago com o meu dinheiro e o teu. Sim, o de quem está a ler isto.

Cada dia que passa vem alguém mais sábio que o anterior dizer pérolas de sabedoria sobre o povo, os seus direitos e conquistas a duras penas, ou outra qualquer situação que eles considerem uma aberração.
Porque de aberrações se tratam. As pérolas deles.
Não os direitos e as conquistas, mas quem as profere.

Devem ter aprendido estas pérolas quando andavam a pagar a gurus, nalgum ashram na India para fazer meditação transcendental, ou andavam a “comer, amar e orar”.
Nas ilhas Cayman onde guardam as contas bancárias.

Se me tivessem perguntado, ensinava-os a meditar enquanto ganham o ordenado mínimo nacional. Com o tempo despendido na meditação, transcendiam-se com o jejum, comiam uma hóstia na missa de domingo e talvez aprendessem a amar o próximo cidadão, já que o Bardem comeu, orou, amou e casou com a Pepélope.

Deixo-me de devaneios e faço a denúncia que me trouxe aqui.
Mais um atentado aos nossos direitos. Quero fazer mais um alerta. Este é mais um protesto contra o que está a ser serenamente anulado: o fim do nosso estado de direito e sobretudo o fim ao nosso direito a um Estado de bem. Para acordar os de sono pesado.

Ontem, um dia pensado para não se fazer compras, para não se consumir e sim para reciclar, trocar, reutilizar e dar, um grupo de jovens bem acordado para não perder o direito a uma vida feliz, ou como lhes chamaria um miúdo de 12 anos, “hackers”, colocou em prática esta prática.

São hackers do sistema selvagem em que vivemos. Que querem trocar as voltas à falsa democracia e instalar o vírus da solidariedade entre as pessoas. Que se preocupam com o bem-estar colectivo.

São jovens alegres, que só querem ser felizes hoje e quando forem mais velhos. Sim, porque o futuro foi-lhes penhorado.
Têm o direito inalienável de serem felizes no presente e no futuro. Que nenhuma presidente da assembleia, banqueiro, sinistro no governo ou outro lhes pode retirar.

Com alegria ocuparam uma parte da rua do Carmo e estiveram a oferecer, sim OFERECER roupas, livros e comida. Cada pessoa podia chegar oferecer coisas e partir com o que precisasse. Até estrangeiros reformados levaram coisas em 2ªmão e tiraram retratos à acção de rua.

Foi uma alegria, porque mesmo na pobreza não precisamos de ser tristes. E às 4 da tarde tocaram para alegrar quem passava. E iam dando lições de cidadania com as explicações que iam dando a quem passava.
Ensinavam que trocar e partilhar coisas é bom, vale a pena e é um caminho.
Eram 4 da tarde de sábado, juntaram dezenas de pessoas a ouvi-los tocar que participaram sem se fazer rogados.

De repente foram interrompidos pela PSP. A polícia do povo. A polícia que os jurou defender. Como a senhora Presidente da Assembleia o fez. A polícia que subiu as escadarias da Casa do Povo sem receber bastonadas em troca.

A PSP tinha recebido uma reclamação por ruído. Com o argumento de que estavam a perturbar o descanso das pessoas nos seus lares.
Junto aos armazéns do Chiado? Onde só há comerciantes/multinacionais e nenhum lar, quis eu saber.
Queriam levá-los. Perguntei à multidão que se juntou para os ouvir tocar se se sentiam incomodados.

Gritaram em uníssono que não. A Polícia teve de engolir não um sapo mas um jacaré. Havia uma linha que se eles pisassem teriam dezenas de testemunhas a acusá-los de fascismo. Eles andam a pisá-las. Todos os dias, porque deixamos.
Mas ontem não foi o dia.

Os rapazes e raparigas fizeram o que tem de ser feito. Resistiram pacificamente a saírem dali, a dar os nomes, ou a deixarem-se levar.
Obrigaram a PSP a dizer o que queria em frente a dezenas de pessoas. Com muita gente do público a reclamar. Outros filmavam e gravavam.

A PSP cumpria o seu dever de responder a uma queixa vinda de alguém não identificado…(suspeito que tenham sido os comerciantes das multinacionais da zona, por não encontrar outras vítimas do barulho feito pela músicos).

Os jovens cumpriram o dever de cidadania de não saírem dali, de exigirem em frente aos muitos presentes, que lhes fossem dadas respostas.
Porque razão não podiam estar ali a tocar e a dar oportunidades a pessoas de levar gratuitamente o que quisessem e precisassem?
A PSP não trazia máquinas para medir decibéis, apenas uma reclamação. Contra um grupo de jovens músicos na sua maioria, com aspecto de novos hippies.
Dali não saíram e a PSP acabou por se retirar mas acabou a música e a dança. As trocas continuaram a fazer-se, os jovens continuaram a explicar o que os levava ali.

A acção da PSP cheirou muito mal. Cheirou-me a preconceito mas cheirou-me pior.

Cheira-me que querem acabar de vez com a cultura e com a educação. A cultura vinda dos cinemas, dos teatros, da música, da literatura. Por isso os querem levar a fechar.
Calam a educação, vinda também da informação e de gestos de cidadania.
Querem bloquear a cultura de um novo caminho que só se pode abrir através da cultura e da educação.

Se estivermos muito pobres só podemos pensar em satisfazer as necessidades básicas, como no 3º mundo.
Se estivermos muito pobres, em dívida, ficamos muito apáticos, alienados, dormentes e não pensamos no colectivo.
Se estivermos muito pobres, vamos empurrando com a barriga até voltarmos a usar lenço preto, bigode e comer sopas de cavalo cansado.

Cheira-me que se retirarem o direito a estar na via pública a partilhar, a informar, a trocar, a ser feliz, obtêm o maior poder de todos. O poder de manipular. Que tão bem fazem através de outros mecanismos.

Cheira-me que nos querem impor o Estado sem direito e sem direitos.
Precisamos cada dia mais, de mais hackers.
Resistentes e desobedientes.
O caldo está a esturricar. E cheira-me muito mal.

Querem-nos fechar portas a todo o custo e abrir as da ignorância que levam ao medo.
Se somos uma raça em experiência, auto entreguem-se cartas de alforria e hackem o sistema.
Pelo amor às vossas vidas.