sexta-feira, 27 de março de 2015

Uma história, a minha, a tua, a da literatura

Vou contar uma história?
Que pode ser a minha ou de algum estranho?
Não seremos todos em conteúdo e forma
histórias?
Que seria de mim
na minha precária condição humana
que nada é
por tão precária ser
sem comunicar?
Sem palavras
escritas e faladas
nos seus silêncios
sem a musica das suas histórias?
Certamente seria
a ausência de luz.
E, na silenciosa escuridão do nosso encontro
meu e das palavras a não calar,
lá onde me torno intima com o autor,
me defino amiga ou inimiga com os personagens
vislumbro as minhas asas,
o meu lugar,
de onde devo partir e a ele regressar
para histórias também contar.
Esta é a minha história.
Quem sabe a tua.
Um dia fui assim
afastada de mim
longe de gostar da minha pele
sem saber para onde ir
o que desejar, o que aprender, o que pensar,
que histórias contar.
Enquanto sonhava, chupando um dedo,
recebi uma chamada:
-ei, dizia-me do outro lado o tempo: é já!
o tempo de esperar já não espera
ou passas pelo próprio tempo
a correr sem o apanhar.
Sem hesitar
tirei a arma do viver,
saí para o conquistar.
Histórias percorri, histórias ganhei
histórias perdi,
histórias vi, histórias transformei
histórias sonhei, histórias vivi
Histórias escolhi.
Umas divinais, outras infernais
Nelas nasceram personagens
vis, ignóbeis, mal amadas,
apaixonadas, crentes, corajosas,
sofredoras, angustiadas,bipolares,
dementes, lutadoras,tristes, envergonhadas,
felizes, invejosas,vingativas, poderosas,
Umas miseráveis porque sem alma
outras ricas com fortunas de bondade.
Histórias algumas inconfessáveis
ah incontáveis histórias inconfessáveis...
porque aos olhos da confissão
os ouvidos se fecharão
escondendo os segredos da multidão.
Todas ela me trouxeram uma lição
uma aprendizagem, um caminho, uma oração
uma fé, uma bênção, uma dor,
um baixar os olhos de sofreguidão
um sorriso, um brilho, uma satisfação
um erguer do coração,
um sufoco, uma tentação.
Com todos os personagens, nas minhas histórias
aprendi, desaprendi, lembrei, esqueci
amei, odiei, entendi, dei e recebi
ganhei e perdi.
Com uns aprendi que não voltam a entrar na minha casa,
e da memória os varri.
A alguns personagens exponho-os,
por falsos serem,
para ninguém lhes seguir exemplos
porque impregnados de maldade, mesquinhez, inveja
disfunções de emoções e sentimentos
tão humanas quanto podem ser também impermanentes
e quem sabe um rio as pode lavar
levando para um longínquo oceano.
Estes escondem não raramente,
no recanto de um fechado lugar
dor, sofrimento, desatenção e desamor.
Inimigos? Naturalmente que sim.
Porque com seguro de perfeição
antes de nascer
a cobertura não pedi.
Fiz amigos que me pertencem
Tive amigos que já perdi
Os que foram, os que são,
Guardo-os no plasma
Alimento-os, rego-os
Conjugamos juntos
o verbo amar
pertencemo-nos
nunca morremos
deixamos a história inacabada
e poemas por fechar
Agora que o tempo
com a idade me conquistou, dizem-me:
-Cuidado com o que pedes, o que pensas, o que atrais
-Recebes o que dás
-O vento que te dirigir oferece-te as aragens
só tens de as seguir
-Semeia e receberás
-É Deus que te comanda o fazer
-Tens o destino traçado mesmo antes de nascer
- Deixa-te ir, deixa-te levar, deixa-te ser
-A história constróis tu
-A história foi planeada entre o autor e os personagens...
Que sei eu?
Se vim para contar histórias?
Construí-las?
Ser pertença de uns quantos
De outros apenas tocar
De alguns apenas as histórias conhecer?
De cumprir um destino
Uma missão, um talento?
Sou poeta que a vida enganou
isso sei com certeza.
Chegou comigo ao colo,
deu-me e
não me deixou explicações nem instruções.
Sou e serei sempre um poeta sem o ser
porque nem sempre a poesia me habita
mas de histórias em poemas tenho-lhe a forma.
Amando com o tempo a pele que me acompanha
Apanhando os bagos de arroz
Seguir, seguir, seguir
é o meu caminho
sem saber onde vou.
Ficar apenas onde o amor habite
deixando que a aragem me conduza
até à casa
onde irei regressar
como pó.
Como poema com brilho estrelar.


Por amor à minha língua, às histórias, às palavras, e, por amarmia regozijo-me com o facto de Mia Couto ser um dos 10 finalistas ao prémio Man Booker Prize 2015. Entre os finalistas há 4 africanos o que me faz alargar o sorriso.

" O meu erro... foi entregar a minha vida a este mundo que não encosta com o meu."
Mia Couto
No livro " Vozes anoitecidas"
Photo by © Margaret Courtney-Clarke — comJorivalma Muniz DE Sousa.