quinta-feira, 2 de abril de 2015

Desafio sob medida

O desafio que ninguém deseja...
Ir ao seu próprio funeral!
Deve dar uma enorme vontade de rir e chorar...
por aqueles que querem connosco vir
por aqueles que pensam que vão ficar.
Os funerais são para os vivos!
precisamos experimentar dor,resistência, lamento, lágrima, saudade
quem de nós vai (dizem os entendidos, que eu ainda não vi, nem sei)
torna-se leve.
Deixa os pesos na matéria. Todos eles.
Afianço eu que já percebi.
Ficam cá para nos aligeirar.
O desporto radical que faz o morto:
-atravessar paredes, voar sobre as cabeças,sentar-se no ar
e borboletas nos nossos ombros colocar
ou um suspiro sussurrar
Mas ó que merda de confusão,
ninguém nos pode, nas novas artes
apreciar.
Resta aos mortos, para se fazerem ver, sentir, ouvir,
usar o verbo assombrar.
E se fazerem deslumbrar.
Já me estou a preparar para morrer
No dia que me pari.
Ajudei o que podia
naquela pocinha de água já não cabia
de novos tamanhos daquele dia em diante
me vestiria.
À medida que passam dias e mais horas
aumentam as minhas possibilidades
mais me aproximo do momento
do encerramento do meu contrato
do final do livro.
Enquanto em nuvens sem poeiras
alguns dos meus amigos e
gente que me partilha o sangue
se senta à minha espera
em coloridas esteiras
Estou na Sala VIP,
enorme sala vida
em trânsito,
entre chegadas e partidas
a aguardar que uma voz alta e sem doçura
numa coluna invisível
pronuncie o meu nome
com clareza e finura.
Enquanto espero,
não quero nada mais ensinar
quero desaprender
e se conseguir,
apenas fazer pensar,
quero arranjar espaço para ideias novas
que de nada me podem servir
porém com elas
novas expressões de mim
vou criar
para ajudar o tempo a ser,
o meu abraço de despedida
com toda a ternura
por este meu devir.
Quando a hora soar,
para num sono me tornar,
terei de me deixar adormecer
em profunda aceitação
de que o livro terminou
e deixar-me ir
olhando o capítulo que se encerrou.
Levem flores campestres,
rum, gelo e folhas de menta,
sentem-se nas sombras,
celebre-se em doses generosas
a vida
com palmas,
numa dança, num poema, numa canção
ao som do violão,
e no compasso de pés a bater o chão.
Por respeito e por alegria
mesmo não respirando o mesmo ar
dos outros que me irão lembrar
aceito este tremendo desafio
e afinal decidi
que junto dos vivos,
na festa do meu funeral
irei estar
a ouvir, a ver, a dançar,
para mais uma história animada contar