sábado, 11 de abril de 2015

caleidoscópio- poema ao trabalho de ser quem sou

Sou o meu trabalho?
Ou ele tem tão só 
uma ínfima representante de mim?
sou o que faço?
ou faço um trabalho 
sendo o que sou
e nalgum genético traço
a ele me dou?
Quem sou?
E no trabalho sou eu que estou?
Se o trabalho me possui 
não posso ser dele
e sendo...
não quero!
E deixo de ser eu?
Ele e eu somos um só?
identifica-mo-nos sorrindo no mesmo espelho? 
Dispo o fato 
de trabalho 
no final do dia
colado na minha pele 
consumido, desgastado
deixo-o caído até nova manhã
ali fica, sem valor, despido, ignorado
desprezado.
Só quando dele me liberto
se de um fardo se trata
me sinto leve?
Ao descobrir, 
o valor do nascimento de cada estação,
descobrindo quem sou,
tiro-lhe a venda
roubo-lhe o poder de me emprestar
falsos créditos
contas,objectos,ostentação vulgar
enganando-me com a aparência de felicidade.
Não, não mais lhe dou tanto poder 
visto a leve musselina 
dos meus pés sem gravidade
quando me deixo ser eu,
começo o meu único trabalho
enquanto me restar um sopro de oxigénio
de deixar o meu coração bater,
dedicar-me a ser 
no caleidoscópio do mundo
lava, nuvem, árvore, ramo
quem sou, 
quem vim ser
E se tu ainda não vestiste 
a tua leve musselina
o que te faz esperar?
meu doce amigo
por ti resta-me dobrar a chorar.