segunda-feira, 13 de abril de 2015

Eduardo Galeano. Obras para descarregar

Soltou-se
em mil fragmentos
uma das folhas mais bonitas
da árvore que somos
que mais sentia pensando e 
pensava sentindo
onde queria chegar?
apenas caminhava
mais além, um passo mais além
onde se estende o horizonte
na sua utopia
que fez nossa
que nós importámos para dentro do coração
fez-nos sentir pensando 
e pensar a sentir
pedia para sermos rebeldes
para nos libertarmos da opressão
deste mundo canalha
quando nos quisessem amarrar
porque nascemos para a liberdade
disse-nos 
para aprendermos a dizer não.
Nas minhas febres
ganhei o direito a delirar
com a poesia das palavras andantes
voei com elas
porque são as palavras que me libertam
ah se a minha mente pagasse bilhete
de cada vez que faz uma viagem
e tantas que eu fiz com as suas
haveria uma companhia muito rica
a da imaginação
mas essa já tem toda a riqueza
albergada nesta paixão
que com outros partilhava.
"A minha palavra vale mais que uma escritura
não precisa de nenhum contrato"
dizia-me o meu avô quando eu era criança
ouvi-o de novo de Eduardo Galeano, 
palavras ditas de outra forma
ambos fisicamente parecidos
desaparecidos
mas de mim nunca perdidos
Hoje a palavra perdeu este valor
e eu por ela comecei também a escrever,
tendo no horizonte a mesma utopia,
de restaurar a importância da palavra
missão de quem dela se apodera
para comunicar.
Tendo na minha bagagem 
utopias acumuladas,
de rebeldia, 
de viagens por fazer, de palavras para ler
de histórias para contar, de sonhos por sonhar
de mundos por descobrir, de vitaminas para comer
com as mãos, os sentidos, as emoções
com a mente aberta
E, se puder um dia, como o poeta, 
o escritor,
o homem de enorme dimensão,
depois de participar no restauro 
do valor da palavra 
soltar-me