quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Permissão para te odiar com amor

Estende-me a tua mão

Embrulha-me no teu calor

Desconhecia que respirar podia ser
Apenas uma dor no peito
que me prendia à vida
no amor de te perder
na permissão que te dei
para me odiares em nome de um amor
perdido e desconhecido da lei do amor


No dia em que deixei
Que a raiva do teu coração
Se espalhasse dentro do meu ser
Ganhei o gelo vindo da tua violência
Perdi a minha mão, a minha vida, o meu chão

Só me resta
Pedir-me:
devolve-me para sempre a minha mão


Não deixes que te amem assim, até que a morte vos separe. Violência não é amor. É crime. É apenas violência.
Não permitas que te aconteça.

Conto escrito em homenagem às mulheres que morrem vítimas da violência doméstica:

Permissão para te odiar com amor

«Pensa em portar-te bem! Se contas a alguém juro que morres. Mato-te com as minhas mãos foda-se!»

«Perdoa-me meu amor amo-te, desculpa-me. Não sei o que me aconteceu…»
«Sem ti não respiro…és toda a minha vida. Amo-te. Desesperadamente…»

Mila já ouvira estas frases tantas vezes que se tornaram o seu mantra de vida. Desde que os amigos não sonhassem…
Procurava sempre esconder e já tinha a arte e a manha para o fazer. Anos de prática e conseguia sempre encontrar uma desculpa para o que Luís lhe fazia. Há oito anos. Estava exausta, mas não sabia o que haveria de fazer sem Luís.
Nem com a sua vida…estava numa armadilha, sem um fio onde se agarrar para se puxar para dela se escapar.

Não se importava muito com a ameaça. Luís usava-a constantemente.
Mas não a colocaria em prática. Amava-a disso tinha a certeza. Nunca a queria longe por muito tempo. Tê-la na sua companhia era a vida dele. Ele precisava tanto dela…

Raramente viam amigos ou família. Ele sentia-se infeliz e só ela sabia. E a companhia dela era a única que o deixava calmo. Também violento. Bebia cada dia mais. Chorava agarrado à sua cintura: «Nunca me deixes, não sei viver sem ti, és a minha âncora, o meu porto. O meu refúgio. A minha vida».

Depois de lhe ter batido a primeira vez. Fora um estalo.
Descontrolou-se. Por um pequeno nada.
Deu-lhe um estalo.
Ela perguntou-lhe porquê? Ele ficou paralisado. Abraçou-se a ela e chorou a pedir desculpa usando pela primeira vez a frase que acabaria por ser um mantra: «Perdoa-me meu amor amo-te, desculpa-me. Não sei o que me aconteceu…»
«Sem ti não respiro…és toda a minha vida. Amo-te. Desesperadamente…»

Mila era o único amor da sua vida. Compreendiam-se tão bem. Bastavam-se. Eram dois serem numa única vida. Inseparáveis. No amor. No medo de se perderem. Como tantas vezes o amor nos surpreende com o medo da perda do outro.
Mila questionava-se como poderia ela viver sem o amor de Luís, tal como Luís lhe dizia repetidamente…

Pouco tempo depois de se começarem a amar, a vida deles juntos, tomou um novo rumo. Estariam para sempre unidos. Eram o oxigénio que cada um precisava.

Mila era o amor da vida de Luís. Este saber, vinha de dentro da sua pele. Sentia-o nos ossos, na alma. Às vezes também lhe doía por tanto o amar.
Ele retribuía esse amor. Estavam um para o outro em todos os momentos e circunstâncias. Assim deveria ser num relacionamento. Era seu dever respeitar a vontade dele. Em nome do amor.

Aos poucos sucedia-se o descontrolo. Os estalos. Puxava-lhe o cabelo e arrastava-a até ao chão. Pontapés. Pegava no cinto e batia-lhe nas pernas. Cada dia mais sádico.
Amor e ódio confundiam-se na sua cabeça. Pavor e angústia passaram a ser o seu drama em cada dia.
Esconder-se dos outros era a sua obsessão. Vergonha, medo, humilhação. Medo de o perder. Medo dele…

Chorava angustiada quando ele a abraçava a pedir perdão. E quando ele começava a bater-lhe. Já nem sabia o motivo por que ele se descontrolava. Nem sabia o que havia de fazer para lhe dar prazer e satisfação. Tinha perdido a criatividade com o tempo.
Com o tempo apenas lhe restava o medo de sair.

O seu refúgio único era no desespero do seu medo: enquanto ali se escondia,procurava constantemente uma forma de se defender da próxima violência.
Secretamente esperava que ele mudasse. Em nome do amor. Ele fazia sempre tudo por ela. Nunca tinha querido outra depois de a conhecer.

Não lhe podia pedir para procurar ajuda. Ele ficava ainda mais violento. Mais agora que nunca. Mais agora que sempre. A culpa só podia ser dela.

Depois de cada crise ele pedia perdão. O amor por ela era tanto…afirmava.
Ela perdoava,porque sentia que o que ele lhe dizia era verdadeiro.
Mesmo que não fosse, ela tinha desistido de procurar outra resposta. Estava morta por dentro.

Tinha tanto medo…queria desaparecer da face da terra. Ou que ele mudasse…para serem felizes.
Em vez disso, sucediam-se as crises violentas.
Estava tão cansada de lutar. Nem sabia quem era o seu inimigo maior…Se ele, se ela própria com o seu medo e vergonha.

Naquela noite, ele estava zangado com alguma coisa. Ou sem razão nenhuma.
Ouvia-o gritar a culpá-la. A dizer-lhe quanto era inútil.
A voz dele chegava-lhe por entre o barulho dos seus soluços.
«Pensa em portar-te bem! Se contas a alguém juro que morres. Inútil, mato-te com as minhas mãos, foda-se! »

Atirara-a para cima da cama e obrigou-a a fazer sexo. Cheirava a álcool como era seu hábito. Ela pediu-lhe que não fizessem porque se sentia doente. Há muito que o sexo entre eles tinha apenas uma forma de ser praticado. Sempre forçado.

Seguiram-se injúrias, humilhações enquanto as lágrimas lhe corriam livremente e ela gritava em desespero «por favor, não! deixa-me ir embora».
«Sua puta é o que tu queres? Vais tê-lo…»

Tinha-se escondido tão bem, de todos, que apenas o silêncio lhe servia de companhia. Quem a poderia ajudar sem a julgar? Nem se atrevia a pensar. Era o saco emocional e físico onde ele descarregava. Tinha-a treinado para aceitar o que lhe fazia. Ela aprendeu. E isso era tudo. Não fazia ideia como desaprender.

Fora morta com violência, como tinha sido a sua vida nas suas mãos.
Um terramoto não avisa que vai engolir pedaços por inteiro, na vida da superfície da crosta terrestre. Avança, engole, rouba e provoca devastação e um impacto irreversível, na vida de quem sobrevive.

Ela tentou segurar a força devastadora da violência do terramoto que a atingiu. Fez o seu melhor. Sem nunca se ter dado a oportunidade de ser ajudada, ofereceu-se para o sacrifício de salvar o ego, a maldade ou a loucura dele.

A relação tinha-se tornado o lugar mais inóspito da sua vida e não chegara a tempo de a salvar.
Não conseguiu escapar ao que ele chamava amor.
Este amor mortal fora fatal para a sua vida.