domingo, 1 de setembro de 2013

Presas, primatas e mudanças


Nos tempos selvagens que vivemos “a mudança de comportamento é a maior conquista que o homem deseja alcançar” (Desmond Morris).



A grande preocupação da classe a que pertenço, a humana, é a de exteriorizar, ou direi antes, colocar à mostra para que outros vejam, ao invés de interiorizarmos sobre o que nos está a acontecer. À raça.

Ardem-se-me as entranhas ao pensar que proíbem o uso de vulgares garrafas de azeite à mesa, ou de fumar em todo o lado, mas desconsideram fazer leis que protejam a vida dos únicos que de forma afoita nos protegem as casas e vidas, para que uns obscuros tenham proveito com terrenos e madeiras ardidos.

Fritam-se-me as entranhas quando morrem mulheres nas mãos da violência doméstica, sem conseguirem que as suas lágrimas sejam ouvidas, porque carecidas de uma qualquer matéria de prova contra o violentador.

Cozem-se-me as entranhas quando somos surdos à desinformação generalizada sobre potenciais guerras “al di lá” das nossas ruas mas também mudos em relação ao desperdício em que o nosso quintal ainda respira. Lenta e em coma assistido.

País em modo selvagem. Ou das selvagens. Pertença lusa ou espanhola, tanto já me faz.

Eis senão quando, alguém se preocupa com a protecção à piropagem. Que me faz lembrar o primitivo a arrastar a sua dama das cavernas pelos cabelos.
De onde evoluímos,
ou não…

Certamente para proteger as mulheres cinquentonas, com madeixas, e o uso do cartão de crédito com o limite há muito ultrapassado.
Daquelas que já só recebem piropos dos predadores dos andaimes, se estiverem distraídos a almoçar. Nalguma sobrevivente construção pré-autárquica.
Ou em noites em que se sintam as verdadeiras swag na noite. Quando os gatos são muito parvos.

Da forma como as relações humanas e sociais evoluíram recentemente com as novas tecnologias, e, com a nova vida social na sociedade moderna e global, quem piropa arrisca-se a levar uma punhada entre os olhos, da adolescente mais primitiva, “tipo uma qualquer tájaver”,
ou a simples ignorância de uma qualquer mulher que tenha evoluído, um pouco mais que o primata que a piropa!

Continuando na minha deambulação sobre as descobertas de Desmond Morris no “Macaco Nu”, até chegar aos evoluídos dias de hoje, na sua arrogância, o homem não é mais que:

-” Um primata, um animal que um dia se ergueu, passou a caminhar em pé, desenvolveu seu cérebro e transformou-se no mais extraordinário ser deste planeta.
Um animal que prefere se ver como um anjo caído e não apenas como um primata que se levantou.”
Nossos ancestrais primeiro desceram das árvores. Depois passaram a caçar em grupo. Seus cérebros se tornaram mais complexos e surgiu a linguagem.

E com ela, o piropo.

Anjos caídos, primatas amigos e companheiros de raça, piropem, fotem, facebookem a treta que somos, mas swapesse esta raça que mata, violenta, rouba, corrompe, manipula, mas sobretudo uma raça que continua a exteriorizar e a desperdiçar o bem maior que é a vida.
Com estes pecadilhos e crimes menores e/ou maiores.


Eu cá, que já nem recebo piropos, o que me causa uma certa tristeza como primata fêmea, e aborrecimento, como primata inteligente, ao não conseguir levar o primata macho a tribunal com dentes partidos, tenho esperança de cair da cama, bater com a cabeça no chão, acordar e, perceber que isto é apenas um jogo virtual da raça, como civilização evoluída dos primatas.