domingo, 27 de outubro de 2013

Na espuma dos nossos dias – Há festa no quintal, na praia


Têm presente os baloiços de jardim com uma prancha de madeira comprida, onde se senta uma pessoa numa ponta e outra no outro extremo e, balançam-se para cima e para baixo?
Se quem está em baixo não se levantar do chão, a que está em cima, lá fica, refém das alturas.

Voltei a ver o filme Hair e a chorar. Depois consumi a banda sonora com deleite, como milhares de outras vezes.

Que têm vocês com isto? Nada. E tudo. Mas só para quem estiver interessado.

Que tem isto a ver com o dia de ontem? Tudo. E porque gosto de partilhar através da escrita, deixo aqui em imagens e palavras um pequeno retrato do dia de ontem, que me encheu a alma. Com pequenas coisas, simples e gente linda. Como a vida pode ser plena só assim.

Foi dia de grande manifestação no país e foi dia de festa no quintal - na praia, em jeito de despedida do Verão. No quintal- na praia surpresa! o dia foi abençoado por sol, calor e apenas uma brisa soprada por anjos que diziam: venham, juntem-se, partilhem o que sabem, o que fazem, estejam em paz. Sejam.

A noite foi tão serena que até os anjos pararam de soprar a brisa para ouvirem a musica dos anjos que passaram pelo palco. Muitos e bons.

De mulheres grávidas de luz, a bébés já a irradiarem luz, com Adão(s) e Eva(s) lindos, se compôs o quintal/praia mais lindo do mundo.

Com trabalhos artesanais plenos de criatividade e feitos com amor, muita musica entregue com alma e, o coração colocado na partilha de saberes, de conversas sobre política, amor, novas formas de relacionamentos e novas formas comunitárias e democráticas de estarmos na vida e na sociedade, o quintal vem dando à luz um projecto cheio de sentido.

De ruptura com o sistema: com as crenças politicas, religiosas, emocionais, sentimentais, intelectuais, materiais. Ligadas ao ser espiritual que somos todos. Sem medo de ser.

Levou-me ao filme/musical Hair que tanto me influenciou quando tinha 17 anos e para sempre. Aquela geração teve fibra, teve graça, teve garra, teve alma, teve coração. Despiu-se de preconceitos, de género, de lixo e tornou-se uma referência sobre o que pode ser uma sociedade livre.

Que não precisa de governos, de trokas de soberanias, de economias baseadas em dinheiro e consumo. A troco da venda das almas. Em nome do lucro, da ganância e com eles a miséria de milhões.

Quem partilha a festa no quintal/praia é gente neta desta geração. Sem guerra no Vietnam mas em guerra por todos os cantos do mundo. Esta bonita gente desprendeu-se como pode e sabe, com convicção de querem uma alternativa. Perderam o medo, deixaram de obedecer e tentam ser felizes.

Através da união simples, das trocas, entreajuda, do respeito e da partilha dos afectos. Com garra e orgulho por serem quem são. Como a geração Hair/hippie.

Ontem preferi ficar a experimentar e a partilhar esta vivência. Positiva e de metamorfose. De muita conversa e interacção.
Estive no centro da esperança, de uma experiência de vida que já nasceu. Com garra.

Na praia houve uma manifestação anti troika e sobretudo anti-sistema. Anti políticos e governantes que roubam. Roubam-nos dinheiro, não nos roubam sonhos. E ontem sonhei muito. E dancei mais.

De trocas fez-se o dia. De noite se fez música e dança. Muita, vinda de musicos excelentes. Ninguém queria deixar aquela manifestação.

É garra de mudança que falta, aos portugueses, em massa. Para se levantarem do assento do baloiço onde estão sentados e fazerem cair quem se julga lá em cima, sem tempo, para sair do poder. Há alternativas, sim!

Ontem na praia, aconteceu uma jam session sobre o mundo que gostaríamos e, que pedimos nas manifestações. Este pode vir a ser melhor.

Levantámo-nos do baloiço no chão e começamos a deixar os “outros” cair.
Venham daí mais quintais de amor. Parabéns à organização e aos voluntários que são todos os participantes.


O “Hair” power voltou a ser uma vaga. De uma altura enorme. Do tamanho das vagas no mar de ontem na Cova do vapor.